Na saúde, afinidades entre Lula e Alckmin vêm de longe

Na saúde, afinidades entre Lula e Alckmin vêm de longe

Militantes do PT participaram da gestão tucana, enquanto executivos e empresários da saúde vinculados ao PSDB foram convocados nos governos petistas

Mário Scheffer

31 de março de 2022 | 10h00

Imagens e cartas de intenções produzidas para campanha eleitoral nada têm de sutis ou repentinas.

Geraldo Alckmin e o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha estamparam fotografia no dia 23/3, durante ato de filiação do ex-governador de São Paulo ao PSB.

Na cena premeditada, espicharam registro de quase dez anos atrás, feito durante campanha de imunização, no dia em que o ministro aplicou vacina contra a gripe no governador.

Geraldo Alckmin e o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha em foto. Foto: Twitter/Reprodução

Resolução política do Diretório Nacional do PT, de 24/3, afirmou que o respeito aos “compromissos programáticos antineoliberais” é condição para a troca de alianças nas eleições.

Entendido o sentido mais amplo da exigência, restam dúvidas sobre sua aplicação em temas específicos.

Uma interrogação é se de fato a agenda neoliberal para a saúde, adotada por governos há tanto tempo, mesmo por aqueles com teor progressista, daria lugar a políticas social-democratas.

Com a proximidade da oficialização da chapa Lula-Alckmin, cabe resgatar a longa e duradoura afinidade entre políticas do PT e do PSDB para a saúde.

As semelhanças iniciaram com a prioridade dada ao programa de saúde da família, abraçada depois por José Serra, então ministro, apresentada como espécie de consolação ao ajuste fiscal.

As sinergias foram adiante na expansão das organizações sociais privadas para administrar serviços públicos e nas agências para regular os mercados da saúde.

Baixo financiamento do SUS e regulamentação conveniente ao setor privado produziram novas convergências, entre elas uma silenciosa reforma trabalhista setorial. A contratação de pessoal por PJ, MEI e bolsas tornou-se padrão na saúde.

A proximidade política se expressou ainda na composição do Ministério da Saúde. Militantes do PT participaram da gestão tucana, enquanto executivos e empresários da saúde vinculados ao PSDB foram convocados nos governos de Lula e Dilma.

Para quem é da saúde, o casamento Lula-Alckmin seria mais uma celebração de bodas de prata do que um caso de amor incomum.
Ocorre que o clima social e político no Brasil mudou, encharcado pela extrema direita e suas ideias que chegaram com tudo na saúde.

Distribuir cloroquina na rede pública, censurar campanhas de prevenção ao HIV, dificultar assistência a mulheres estupradas, negando-lhes o direito ao aborto, nomear militares e milicianos para cargos, são parte de ofensiva sem precedentes na história do SUS.

Um tsunami devastou a saúde pública, porém as burocracias partidárias têm hoje outras prioridades.

A insossa convocação pelo “fortalecimento” ou “reconstrução” do SUS, cai bem para qualquer plateia.

Mas diz pouco sobre quem poderá ter acesso de qualidade, em quais serviços de saúde, interesse maior da população que deveria pautar o momento eleitoral.

Não se sabe o quanto o PSB e Alckmin, que é médico, irão participar da formulação de propostas para a saúde.

Como deputado Constituinte, Alckmin atuou na aprovação do SUS. Após a derrota na eleição presidencial de 2018, virou professor convidado de cursos de medicina.

Mas a reivindicação para si do tema da saúde, desde a campanha, não ocorreria sem resistências de quadros do PT que cuidam do assunto.

No enlace dos ex-adversários, o “prometo estar contigo na saúde e na doença” pode ser relativizado por cálculos de poder, demarcação de territórios, posse sobre marcas e disputas prévias por cargos, sendo o de ministro da Saúde o mais cobiçado.

Quem foi mais austero na economia e lascou o SUS, ou quem menos implementou políticas sobre determinantes de adoecimento, são comparações que agitam bolhas de militantes, ainda grudados no modo “amigo-inimigo” de ver a saúde no Brasil.

Sob outra perspectiva, basta revisitar a eleição de 2018. As plataformas de Alckmin e Lula (antes de ter sua candidatura indeferida), depositadas no TSE, trazem capítulos sobre saúde muito parecidos.

Nos dois documentos há propostas idênticas, como a ampliação do programa de saúde da família, criação de serviços multiprofissionais de especialidades e implantação de cadastro único com prontuário eletrônico de pacientes.

Por esses dias, Lula e Alckmin têm se encontrado com os mesmos empresários da saúde, uma rede de contatos que frequentam as mesmas festas sociais, emprestam jatos a políticos e realizam doações para campanhas eleitorais.

Nesse espaço seleto, o papo é reto. Gira em torno de subsídios públicos a hospitais privados de elite, desoneração de impostos sobre insumos e ampliação do mercado de planos de saúde.

Não há, por enquanto, declaração de nenhum dos candidatos sobre acolhimento de sugestões dos amigos comuns, especialmente em relação ao pedido reavivado do setor, a liberação da venda dos “planos populares”.

A pandemia de 660 mil mortos estará presente o tempo todo nas propagandas, mas o sistema de saúde certamente não será o pomo da discórdia das eleições.

Semelhanças inconvenientes sempre foram uma força dissuasiva do debate democrático.

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