Volta, Franklin Lobos! Volta "canhão mágico"!

Estadão

11 de outubro de 2010 | 09h08

No domingo, dia 1 de agosto, o craque aposentado Franklin Lobos, de 52 anos, careca e barrigudinho, fez um jogo sensacional. “Vamos dar um show, vamos dar um show”, ele provocava, enquanto driblava os jogadores da equipe adversária. Seu time, o Club Comercio, ganhou por 2 a 0 do Peñarol de Copiapó.O Club Comercio é chamado carinhosamente de “cemitério dos elefantes”: um time amador com muitos ex-jogadores profissionais e mineiros, todos com mais de 50 anos. Quatro dias depois desse jogo, no dia 5 de agosto, o meio-campista Lobos entrou para a história como um dos 33 mineiros presos a quase 700 metros de profundidade na Mina de San José.
Lobos era motorista da mina, levava e trazia os mineiros em um caminhão. Estava quase no final do turno da tarde, quando entrou no túnel da mina só para levar um recado do capataz para o chefe da equipe de mineiros. Mas aí veio o estrondo, o deslizamento de terra. Ficou em escuridão absoluta por cerca de cinco horas, e depois, pouco a pouco, foi enxergando seus 32 companheiros de infortúnio.
O capitão do Club Comércio, Juan Carlos Bown, 55, estava no trabalho, uma imobiliária, quando ouviu no rádio a notícia sobre o deslizamento de terra. “Eu não conseguia acreditar, tinha estado com ele pouco tempo antes”, contou Bown, que é amigo de longa data de “Caqui”, como Lobos é conhecido. Para eles, é sagrado: todo domingo jogam futebol e depois se reúnem para comentar a partida, comer churrasco e tomar cerveja.
Antes de se embrenhar na mina, “Caqui” chegou a ser jogador famoso no Chile. Fez parte da seleção chilena na etapa clasificatória para as Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, e do time de Cobresal. Excelente batedor de falta, era conhecido como “o canhão mágico “de faltas.
Mas Lobos se aposentou aos 38 anos e o dinheiro foi sumindo. “É difícil a vida dos jogadores aposentados. Contamos nos dedos os que ficam ricos”, diz Miguel Morales, de 55 anos, um eletricista que também joga com Lobos no Club Comercio. Lobos teve uns negócios, nada deu muito certo, começou a trabalhar com carros para alugar e acabou como motorista na mina. Como os outros, ele sabe que trabalhar em minas é perigoso, mas paga muito bem : cerca de 500 mil (US$ 1000).
Lobos adora dançar cumbia e é sempre “a alma da festa”, contou Bown. “As mulheres estão sempre em volta dele.” Separado, o craque tem duas filhas. E muitas namoradas. “Ele sempre aparece com uma namorada diferente, todas colombianas”, conta Bown.
Por isso, Bown estranhou ao ver Lobos na TV, nas imagens que vieram do refúgio, por videoconferência. “Ele estava muito quieto, apagadinho, ele não é assim” . Seus amigos acham que Lobos é um dos mineiros que está com dor de dentes – por isso não está rindo muito.
Segundo seu amigo Bown, Lobos gosta muito de futebol brasileiro e ficou preocupado quando o Valdívia foi para os Emirados Árabes. “Ele comentava que Valdívia estava jogando mal”, disse. Depois, ficou contente: “O Valdívia voltou para o Palmeiras, está jogando bem.”.
Os companheiros de time estão preparando um festa para receber “Caqui” no Club Comercio, quando ele for resgatado. Mas Bown está conformado, acha que vai demorar para Lobos voltar a reforçar o time. “Ih, quando ele sair, já tem convites para ir à Inglaterra, Espanha, Alemanha – até ele voltar a jogar conosco, vai demorar”, diz. “É uma pena, porque toda vez que a gente leva uma falta, a gente pensa – ai se o Caqui estivesse aqui, era gol na certa.”

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