“Vamos, carajo, um monte de terra e de pedras não podem com este punhado de Atacamenhos – Força e Coração mineiros.”

Estadão

11 de outubro de 2010 | 23h51

O acampamento Esperança se transformou em um grande Woodstock chileno: são centenas de barracas e trailers, musicos folclóricos, cúmbia vindo dos rádios e muitos altares à virgem de Guadalupe. Como todos estão otimistas e esperam para hoje o início do resgate dos mineiros, o clima é de festa. Os familiares ficam sentados em frente a suas barracas, tomando mate, enquanto são assediados por uma horda de jornalistas. Pela última conta, são 1500 jornalistas de 33 nacionalidades e 400 familiares, ou seja, quatro repórteres para cada parente.
“Enterrados, talvez, vencidos, jamais – Pedro Contreras” – essa faixa decora a barraca da família de Contreras, que trouxe um rádio, uma grelha de churrasco e uma barraca. Os Contreras também ergueram um altar improvisado com uma imagem da virgem de Guadalupe e flores em uma garrafa de Sprite. Ao lado, foi afixada uma faixa mais profana: “Vamos, carajo, um monte de terra e de pedras não podem com este punhado de Atacamenhos – Força e Coração mineiros.”
Pedro, que tem 10 irmãos, mandou uma carta para a família ontem: “Tragam os “viejitos (meus pais) aqui para o cerro, que eu estou saindo”, ele disse.
Sua mãe, Doris Contreras, está limpando o quarto do filho e arrumando a casa para recebê-lo. “Não sei nem o que vou dizer a ele, acho que só vou abraçá-lo e chorar.” O resto da família está organizando um churrasco para recebê-lo.
Os jornalistas se viram como podem. As TVs maiores e agências de notícias, como Reuters, têm trailers. Muitas têm até seus banheiros químicos privados, com o nome da emissora na porta – e ai de quem quiser usar. O resto dorme em barracas que ficam geladas à noite, quando a temperatura cai para quase 0 graus, e usa os banheiros químicos comunitários. A partir de agora, quem vier vai ter que dormir no carro, porque não tem mais espaço para armar barracas. Há um “comedor” para os familiares e jornalistas, onde voluntárias cozinham macarrão com carne, salsicha e peixe com arroz. Os mantimentos são doados por redes de supermercados. Eles estão lucrando- o comércio de Copiapó vai lucrar só nesta semana 15% do que ganhou no ano inteiro.
Marcos Stupenengo, repórter da TV argentina C5N, veio com sua equipe de três pessoas em um trailer e uma caminhonete cheia de equipamento, dirigindo de Buenos Aires até a mina San José. Levou três dias.
Já faz uma semana que ele está no acampamento Esperança. Eles precisam dirigir todos os dias para Copiapó, a 40 quilômetros, para buscar água.
Marcos está se preparando para ficar 48 horas acordado, a partir do início do resgate, hoje no fim da tarde. “Minha geladeira no trailer só tem Coca-Cola”, ele contou. O resto de sua dieta é a base de hamburguer e hot dog.
Adriana Nasser, da TV Brasil, está se virando com lencinhos umedecidos, já que banho está difícil. Ela passa um dia no hotel, em Copiapó, e dois no acampamento.
Surgem até paixões no acampamento: “Você viu o meu amor, aquele repórter lindo da Globo?”, perguntava uma jornalista chilena.
E como o clima é de euforia com a aproximação do resgate dos herois chilenos, dá até para fazer piada. “Ali na esquina tem um cjoppinho ótimo, vocês querem com ou sem colarinho?”, brincou Jairom Rio Branco, auxiliar de cinegrafista

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