Uma limítrofe motora na terra do faça-você-mesmo

Estadão

23 de outubro de 2006 | 23h56

Dito isso, deixo aflorar meu vexatório lado Penélope Charmosa/pequeno burguesa (o que preferirem).

Jesus, que canseira. O sonho americano é extenuante, saibam. O preço de viver nesta sociedade afluente é carregar sofá nas costas e passar 10 horas montando escrivaninhas e outros móveis. A riqueza da sociedade americana, que produziu esta enorme classe média e uma avassaladora oferta de bens, criou também a ditadura do faça você mesmo. Não, não dá pra contratar alguém pra te ajudar a carregar as coisas. Quer dizer, até dá, mas é caríssimo. Afinal, não estamos falando de países como Brasil ou Índia, onde exércitos de mão-de-obra barata estão sempre solícitos, prontos a prestar serviços. Por aqui, vale o famoso “se vira”.

É possível entrar na Ikea, esta gigantesca Tok Stok sueca, e sair com a casa montada em um dia. Desde que você consiga localizar os móveis nos corredores (não é uma tarefa trivial), carregar todas as caixas e por em um carrinho, sozinho. Chegando em casa, basta seguir as instruções de montagem direitinho e – voila – aí está sua cama. Ora, dirão, o que pode ser mais simples?

Devagar, devagar. Para começar, os manuais da Ikea são inclementes. Um parafuso errado, uma martelada a mais, e pronto, esfarela-se o compensado que é a real essência destes charmosos móveis de design para as massas.

Para alguns, montar móveis, carregar sofá, refazer a porta da garagem, é tão divertido quanto ir ao cinema ou sair para tomar um chopp. Bom, eu realmente não me encaixo nesta categoria “gente que faz”. Manualmente, sou semi-inimputável. Minha mãe fazia a piada de que eu tinha sido reprovada no exame psicotécnico da auto-escola. Acho que faltou Lego na minha infância. Portanto, vistos por este prisma, os últimos dois dias foram uma redenção para esta auto-confessa limítrofe motora.

PS – Peço desculpas pelo mergulho no prosaico. Estou esquentando os motores para temas relevantes como a perda de poder dos Republicanos, vietnamização do Iraque, sedução de estagiários do Congresso, Guantanamo e quetais.

PS2 – Justiça seja feita, eu ainda estaria dormindo no chão do meu apartamento não fosse a inestimável ajuda do Paulo Sotero, decano correspondente do Estadão em Washington que é agora diretor do Woodrow Wilson Center for International Scholars, e a sua mulher, Heloísa, que trabalha no BID. Sozinha, só consegui montar uma luminária e uma cômoda. Ah, e pendurei a cortina do box do banheiro. Que orgulho….

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