Um relato da emoção do parto dos 33 mineiros: "Estamos todos bem, na superfície, os 33"

Estadão

14 de outubro de 2010 | 08h15

Eu nao enxergava o teclado do computador, porque não conseguia parar de chorar. Meu editor perguntava – “e aí, tudo bem, está mandando o texto?” E eu: “Claro, assim que eu conseguir enxergar as teclas.” Lá fora, todo mundo seguiu o presidente Sebastián Piñera e o mineiro Luís Urzúa, o Don Lucho, o líder do grupo, que foi o último a nascer neste parto da mina: com a mão no peito, cantavam o hino chileno, parados no meio da rua, chorando. Na frente da Praça das Armas, em Copiapó, cidade perto da mina onde vivem quase todos os mineiros, era um buzinaço só. Os atacamenhos cantavam e dançavam em frente ao telão gigante instalado na praça.
Um casal de chilenos, às lágrimas, veio me abraçar.
Queridos leitores, vou postar abaixo o texto que foi escrito no meio dessa emoção, já sabendo que dificilmente vai conseguir transmitir tudo. mas vamos lá.
“Estamos todos bem, os 33, na superfície”
Eram 17 milhões de chilenos chorando de emoção, buzinando e cantando quando o último dos33 mineiros , Luís Urzúa , foi resgatado ontem às 21h55 da noite.Depois de 69 dias presos a quase 700 metros de profundidade, tendo sobrevivido 18 dias com duas colheradas de atum por dia, os 33 mineiros foram resgatados com sucesso com uma das mais complexas operações de salvament o da história. Na principal praça de Copiapó, 3 mil pessoas dançavam, cantavam o hino chileno e choravam. quando o presidente Sebastián Piñera, segurando a mão do mineiro Urzúa, o Don Lucho, agradeceu aos mineiros. “Estamos orgulhosos dos 33 mineiros que deram um exemplo de companheirismo e solidariedade e estamos orgulhosos dos milhares de pessoas que tornaram possível o resgate de vocês.” Ao que Don Lucho disse ao presidente chileno: “Eu agora lhe entrego o turno e espero que isso nunca mais aconteça”. Urzúa era o chefe do turno na mina.
Um a um, os 33 foram resgatados com a cápsula Fênix, que içou-os por um túnel de 60 centímetros de diâmetro de 622 metros de profundidade.
Na praça de Copiapó, o sorveteiro Victor Jofre, de 65 anos, cinco filhos, cinco netos, não conseguia parar de chorar. “Nunca pensei que eles iam sobreviver. A terra caiu em cima deles, ninguém sobrevive a esses acidentes, conheço muita gente que morreu e mina. Pensei que eles iam morrer. É um milagre.”às 6 horas da tarde, Jofre deixou seu carrinho de sorvete em casa, no bairro de Manoel Rodriguez, e foi para a praça das Armas, assistir ao final feliz de uma provação de 69 dias. Jofre ganha só US$ 250 por mês vendendo picolés de rum e leite, os que mais saem. Mas ontem, gastou US$ 4 para comprar uma bandeira com as fotos dos 33 mineiros, a imagem da Virgem da Candelária, protetora dos mineiros, e o símbolo do Chile. Jofre conhece o pai e o avô de Ariel Ticona, o penúltimo mineiro a ser resgatado.
Logo que sair do hospital, onde está em observação como os outros mineiros, Ticona vai conhecer sua filha. Esperanza, de um mês, nasceu enquanto ticona estava no centro da terra.
Ticona, quando emergiu da cápsula Fênix, mostrou orgulhoso o telefone da mina, que levou para guardar de recordação. O telefone foi criado artesanalmente por um empresário local e era chamado de Plano Z, porque ninguém acreditava que ia funcionar. O aparelho acabou ajudando a manter os ânimos dos 33, quando ainda não se sabia se o túnel perfurado pela Schramm T-130 ia chegar até o refúgio onde eles viviam a uma temperatura mínima de 320C e umidade de 89%, que causou fungos e infecções de pele em vários deles.
Cada um dos mineiros cumpriu um papel no resgate. Mário Gómez, 63 anos, o mais velho dos mineiros, foi quem escreveu o bilhete que revelou ao mundo que os 33 estavam vivos, contrariando todas as expectativas. “Estamos todos bem no refúgio, os 33”, escreveu Gómez, o nono a ser resgatado. Gómez, qe tem saude frágil e problemas pulmonares, está no hospital de Copiapó se recuperando.
Urzúa, que era o chefe do grupo dos mineiros, saiu como um dos heróis do resgate. Topógrafo de profissão, 54 anos, calmo e controlado, ele estava há apenas 2 meses trabalhando na mina San José, mas tinha 31 anos de experiência em minas. Foi descrito como o comandamnte da Apolo 13 do centro da terra. Urzúa, ou Don Lucho, foi essencial para manter o controle e os ânimos debaixo da terra. O rosto de Urzúa foi o primeiro que o mundo viu, quando se descobriu que eles estavam vivos e os resgatistas conseguiram enviar uma camera pelo duto que foi construído para mandar alimentos e remédios para os mineiros, enquanto se construía o túnel pelo qual eles foram retirados.”Acabo de conversar com Luis Urzua, o último a sair da mina, como faz um chefe que gosta e respeita quem trabalha com ele”, disse Piñera, com olhos marejados. “Mas tambem quero agradecer as familias dos mineiros, que mantiveram a fe inquebrantavel, que acabou movendo montanhas, e a equipe de resgatistas.”

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