Um plano contra a austeridade chinesa

Estadão

17 de maio de 2009 | 21h33

Outro dia, uma grande amiga minha chinesa, Wei, e seu marido, Rong, vieram passar o final de semana aqui em casa. Estudei com a Wei em Nova York e hoje ela é colunista da Reuters em Hong Kong, escrevendo sobre economia chinesa. Eles têm dois filhos, um de dois anos e outro de meses. Rong, que tinha um ótimo emprego como advogado de mercado de capitais em um escritório em Hong Kong, acaba de ser demitido em meio a um corte brutal, por causa da crise. O pacote de demissão não era lá essas coisas, eles me contaram. E Rong não sabe se vai conseguir se recolocar rapidamente, considerando que sua área, fusões e aquisições, ainda está bem devagar. Mas meu dois amigos não pareciam desesperados.

“Nós temos uma boa poupança”, ela disse, como se isso fosse óbvio.

E é óbvio, pelo menos na China. “Eu não entendo como os americanos gastam tanto, têm dívidas no cartão de crédito e não guardam dinheiro”, diz Wei, que costumava levar seu almoço de casa todo dia, quando estudávamos juntas, e morava a uma hora da universidade.

Na China, tradicionalmente um país onde a chamada “safety net” é precária, as pessoas guardam dinheiro para tudo: pagar o hospital se sofrerem um acidente, já que muitas não têm plano de saúde, precaver-se contra uma crise na economia e uma onda de demissões, ter uma aposentadoria tranqüila.

Mas essa grande qualidade dos chineses – a austeridade – é um dos maiores obstáculos à recuperação da economia mundial. Muito além das hipotecas subprime, no cerne da crise atual estão os desequilíbrios globais.

A China poupa muito, exporta muito, compra os títulos dos Estados Unidos e assim contribui para manter os juros mundiais excessivamente baixos por anos. Os EUA gastam muito, não poupam o suficiente, dependem da China para os financiar. Essa simbiose nefasta vem se desfazendo, vide o déficit comercial americano, em queda, e o superátiv comercial chinês, também em queda. Mas ainda falta muito para a situação ficar equilibrada. E para isso será essencial que a China dependa mais de seu mercado doméstico, ou seja, os chineses precisam poupar menos e gastar mais. (Os americanos, por outro lado, precisam poupar mais e gastar menos – o que estão fazendo à força, por causa da crise.)

Diante desse cenário, é surpreendente ter passado batido no radar de muita gente um anúncio do governo chinês. Pequim anunciou um plano para oferecer plano de saúde para mais milhões de chineses nos próximos três anos. Jim O’Neill, economista chefe da Goldman Sachs, disse que essa expansão da assistência médica na China pode ser “o mais importante acontecimento na economia mundial”. Ou seja, em vez de guardar dinheiro para um imprevisto médico, os chineses se sentiriam mais seguros para consumir – estimulando a economia doméstica.

Portanto, vale a pena acompanhar o plano chinês e ver como vai evoluir.