Um libelo contra o garçom acidental

Estadão

30 de novembro de 2006 | 17h08

Não se engane: ele não está ali para anotar o seu pedido e servir a sua comida. Ele está ali por acidente.

Aqui nos Estados Unidos, a maioria dos garçons tem atitude, na acepção ianque da palavra – isto é, eles se acham. Ser gentil não está incluído no salário do pessoal.

Ai de quem demora para escolher o prato. O garçom estará atrás de você, batendo o pezinho, e perguntando de cinco em cinco minutos: Vocês estão prontos?

Olho em volta, o restaurante está vazio, não estou empatando ninguém. Mas o garçom ansioso vem de novo. Não, não estamos prontos, estamos batendo papo, dá licença?

Nos restaurantes americanos, tudo conspira para abreviar a sua experiência alimentar.

Mal acabei meu prato, e vem o garçom insistente – “are you still working on that?” (você ainda está trabalhando nisso?)

Trabalhando? Eu estou saboreando meu prato, curtindo a refeição. Não estou fazendo um serviço, não.
Aliás, a expressão é absolutamente brochante. Toda vez que o garçom vem com essa frase, acaba o meu prazer gastronômico. (antes que alguém me corrija, fui olhar no dicionário – é com ch sim)

Por fim, um clássico dos estabelecimentos americanos é jogar a conta não-solicitada na mesa. Não importa que você não tenha pedido a conta e que ainda queira um cafezinho. Mova-se. E rápido.

A tolerância dos garçons para eventuais dificuldades do cliente é mínima. Meu pai sempre conta um episódio de sua primeira visita a Nova York. Estava no Village, e resolveu comer um hambúrguer numa lanchonete.

“Como você quer o seu hambúrguer?”, perguntou a garçonete.

Meu pai não teve dúvidas. Mandou um “bad done”

Faz sentido, não? Se “well done” é bem passado, mal passado deveria ser “bad done”.

“Você quer que eu cuspa no seu hambúrguer?”, foi a resposta da garçonete pouco tolerante a atropelos lingüísticos. (bad done é mal feito, rare é mal passado)

Às vezes, há que se admitir, o serviço é bom. A gente até se surpreende. E resolve agradecer mais uma vez, feliz da vida: Thank you!

E a resposta qual é? Ahã. É isso aí. De nada, não há de que, imagine, you’re welcome, tudo isso saiu de moda. O pessoal (não só os garçons, justiça seja feita) se limita a dizer ahã quando você agradece. Que raiva.

O ultraje final é a gorjeta. A recomendação é dar de 15% a 20%, por um serviço normalmente bem abaixo da média. Mas varia. Dia desses, uma amiga minha esteve em um restaurante em Miami e deixou lá generosos 20% para o garçom. Quando estava indo embora, quase na saída do lugar, veio o gerente em desabalada carreira.

“Você não gostou do serviço?”

“Ora, gostei, claro, tanto que deixei 20%”

“Então você não leu a nossa recomendação – sugerimos aos clientes uma gorjeta de 25% quando o serviço for considerado bom.”

Ah, faça-me o favor.

Alguém me disse que os garçons daqui “têm atitude” porque a maioria está garçom, não é garçom. A praga dos garçons acidentais é culpa da revista People. A bíblia das celebridades está cheia de reportagens sobre estrelas de Hollywood que faziam bico de garçom até serem descobertas pelos grandes estúdios.

Como meu pai perdeu as esperanças de ver a Angelina Jolie cuspindo no hambúrguer dele, hoje em dia ele só pede medium rare (ao ponto pra mal) pras garçonetes daqui.

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