Abaixo Lou Dobbs

Estadão

12 Dezembro 2006 | 01h58

LOU DOBBS

Foi-se a época em que só a Fox News era panfletária. Está difícil achar algum noticiário minimamente neutro aqui nos Estados Unidos.

Lou Dobbs, que tem um programa de notícias às seis da tarde na CNN, é um escândalo. Ele passa o programa inteiro falando mal de imigrantes e “defendendo” a classe média. Completamente xenófobo. Fora que a falta de educação impera – várias vezes ele chama alguém de uma associação pró-imigrantes, como a La Raza, e não deixa o entrevistado falar, interrompe, faz comentários ofensivos. E isso é na CNN, que já foi sinônimo de neutralidade.

Os âncoras exaltados agora estão em todas as emissoras – CNN, MSNBC, ABC.

A New Yorker chegou a fazer uma matéria sobre Lou Dobbs e seus “excessos”, e como ele pode estar comprometendo a credibilidade da CNN.

Para se ter idéia da força do sujeito, os democratas mais populistas que foram eleitos agora no dia 7 de novembro já ganharam a alcunha de “Lou Dobbs Democrats”.

Dito isso, é inegável a vitalidade do comentário político por aqui, principalmente o de tom humorístico. Os fake news – Jon Stewart e Stephen Colbert, que fazem programas no Comedy Central tirando sarro de notícias verídicas – são geniais. Tem muita gente que não têm paciência de assistir aos noticiários tradicionais, ou duvida da imparcialidade deles, e acaba usando os fake news como a principal fonte de informação.

Outro dia, Stewart estava noticiando a saída do John Bolton, aquele bigodudo insano que era embaixador dos EUA na ONU e comprou briga com metade das Nações Unidas. Assim que ele anunciou a saída do neocon, a platéia explodiu em aplausos.

No dia seguinte, comentando a reação da platéia, Stewart disse: “olha, vocês têm que ser mais diplomáticos, têm que fazer como o Kofi Annan (atual secretário-geral da ONU, em fim de mandato, que detesta o Bolton).” E mostrou o comentário do Annan sobre a saída do Bolton.

“Ele fez o que esperavam que ele fizesse”, foi o lacônico “lamento” de Annan sobre a saída do embaixador americano.

Aí entra o Jon Stewart: “Bolton fez de tudo para espalhar democracia no mundo, que afinal é o mais importante legado dos EUA – depois da pizza com borda recheada, claro.”

O fato é que a liberdade de imprensa irrestrita produz essas calamidades que são o Lou Dobbs e o Bill O’Reilly, mas também dá espaço para os perspicazes fake news e vários colunistas afiados, como a Maureen Dowd e o Frank Rich, do The New York Times.

Na última sexta-feira, a coluna da Maureen Dowd era uma “fábula” sobre Bush sendo aconselhado por James Baker, o ex-secretário de Estado que coordenou o relatório do Grupo de Estudos de Iraque, tentativa de tirar os americanos da lama do Iraque. A certa altura da fábula, Maureen espeta, sem dó: “Bush convocou seus dois últimos aliados – seu poodle inglês e seu terrier escocês, Blair e Barney”. Barney é o nome do cachorro do presidente. Não preciso dizer que Blair não é um cachorro.

PS – Fui a uma festa no sábado que juntou jornalistas, diplomatas, pessoal do departamento de Estado, FMI, etc. Piada politicamente incorreta que rolava na festa – e aí, você já arrumou seu fornecedor de polônio?

Jon Stewart