Protestando no quarto aniversário da Guerra do Iraque

Estadão

17 Março 2007 | 22h30

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Eram mais ou menos uns cem Subcomandantes-Marcos-Gringos-e-Grunges, cheios de piercings, com bandanas coloridas, cabelos despenteados fashion e cartazes: Impeach Bush! Tragam de volta nossos soldados! Não invadam o Irã!

Os manifestantes quase repetiram a famosa cena do protesto contra a guerra do Vietnã, só faltou a flor. Bloqueando uma grande avenida que leva ao Pentágono, ensaiaram uma resistência pacífica em frente a uma fileira de policiais que pareciam estar indo apartar briga da Mancha Verde com a Gaviões – capacetes, escudos, tornozeleiras, máscara anti-gás.

Veio até um negociador, tudo muito civilizado – por favor, isso é uma democracia, mas vocês não podem bloquear a estrada, nem ficar tão perto do Pentágono.

Aí, o negociador invocou a frase mais usada nest terra, a explicação de todos os males, o mantra americano do século– É QUESTÃO DE SEGURANÇA.

Os jovens não se intimidavam: policiais, eu sei que muitos de vocês provavelmente não sabem ler, mas seu escudo está de cabeça pra baixo!

Num frio de rachar, meus dedos começaram a ficar insensíveis, azulados…..senti o frostbite vindo….zero graus e caindo…..uma neve passageira.

Os manifestantes continuavam impávidos – “No more, no way – no fascist USA”.

Ao lado dos subcomandantes-marcos grunges (ou dos Susan Sarandoners, como diz Stephen Colbert), vinham nenês em carrinhos, todos encapotados, cachorros com adesivos anti-guerra, aposentados agasalhados, várias pessoas com aqueles casacos do bonequinho do Michelin, uma pletora de gorros e bandeiras do Che Guevara.

“Não se aproxime muito, eles vão jogar gás lacrimogêneo”, avisou-me uma manifestante de rosa dos pés à cabeça, com uma camiseta Fora Bush.

“Eu já apanhei desses caras, sério….você é da imprensa? Fica por aí que vai dar briga”, contou-me um veterano do Vietnã.

Apesar dos ânimos exaltados, o protesto foi pacífico. O pessoal começou a voltar, driblando o vento ártico, resignado.

Será que é a última vez que vão fazer protesto?

“Acho que vou ter que voltar aqui algumas vezes ainda….infelizmente”, dizia, conformada, a consultora Rebecca. O namorado de sua sobrinha voltou da guerra com síndrome pós-traumática. Está em tratamento. “Pirou”, ela resume.

Oh well…

Fotos: Patrícia Campos Mello