Rudy Giuliani, versão 10 de setembro

Estadão

13 de março de 2007 | 00h20

Em pleno domingo, um amigo meu do Financial Times viu o prefeito da América, Rudy Giuliani, andando calmamente pelas ruas do nosso bairro aqui em Washington. Nenhum tumulto, nada de pedidos de autógrafos. Fiquei pensando – será que este vai ser o próximo presidente dos Estados Unidos?

O ex-prefeito de Nova York é líder inconteste entre os republicanos na campanha presidencial de 2008- já está mais de 20 pontos porcentuais à frente do ex-favorito John McCain. Se Giuliani foi o herói do 11 de setembro, Mc Cain é o grande sobrevivente da guerra do Vietnã – foi prisioneiro por cinco anos e recebeu as mais altas condecorações. Mas o low-profile McCain foi perdendo pontos entre o eleitorado, principalmente por seu apoio aguerrido à guerra do Iraque e à elevação de envio de soldados.

Já Giuliani era o candidato em que ninguém botava muita fé. O senso comum que reina por aqui é o seguinte: os conservadores do partido republicano nunca vão apoiar um sujeito que tem três casamentos no currículo, morou com um casal de amigos gays, foi a uma festa vestido de mulher, com direito a meia arrastão, defende o direito ao aborto e o controle das armas…..

Mas não é que o homem está na frente?

Os conservadores têm adotado o lema “dos males o menor”. Mc Cain tampouco é o candidato dos sonhos do pessoal do cinturão da Bíblia – atacou Jerry Falwell na última eleição, e teve votos polêmicos em legislação de células-tronco e financiamento de campanha. Mitt Romney, ex-governador do Massachusetts (o que por si só já é uma apostasia para os conservadores), foi pró-direito aborto e casamento gay, e agora tenta convencer que não disse o que disse. Para completar, ele é mórmon.

O fato é que Giuliani, na esteira da consagração como herói do 11 de setembro, por causa da liderança em NY logo após os atentados, está no topo das pesquisas. Mas esta aura heróica pode logo ir por água abaixo.

O Giuliani versão pré-11 de setembro vem com vários senões – vingativo, dado a explosões de agressividade, considerado até racista. O prefeito da América definitivamente não é um darling dos jornalistas. A capa da revista New York, questionando as credenciais de Giuliani para chefiar a nação, laconicamente duvida: Him?

Mc Cain, em contrapartida, é queridinho da imprensa…..adora bater papo com jornalistas, é super acessível….ficou preso cinco anos no Vietnã, teve os dois braços e duas pernas quebrados em sessões de tortura e até hoje não consegue se movimentar direito. Mesmo assim, não se jacta do passado de herói de guerra.

A conferir se o Giuliani 10 de setembro resiste ao escrutínio da mídia americana.