Risadas viscerais de uma plateia assustadora

Estadão

16 de fevereiro de 2010 | 21h44

No sábado à noite, fui assistir ao filme The Wolfman, com duas amigas. Trata-se de mais uma versão da história do lobisomem. E fora a fantástica eliminação do sotaque hispânico do Benício del Toro, enquanto Anthony Hopkins interpreta Anthony Hopkins pela enésima vez, o filme é anódino. A não ser pela quantidade de sangue. Nunca vi tantas eviscerações na tela. Era intestino para cá, crânio para lá, lacerações a rodo.

Mas o mais assustador não era o filme, era a plateia.

A certa altura, um lobisomem abocanha um fígado, e fica com o órgão poeticamente pendurado na boca. Em vez de arghs, ruídos de nojo ou gritos de horror, o que se ouvia no cinema? Risadas de crianças!

Havia várias crianças de menos de 12 anos espalhadas pelo cinema, assistindo àquele festival de violência. E dando risada. Muitas estavam com os pais que, a propósito, também estavam achando imensa graça naquele desfile de autópsias de gente viva

O filme tinha classificação R ,de restrito – crianças abaixo de 17 anos precisam ir acompanhadas dos pais porque há cenas de “horror, violência e sangue”. Mas nos EUA, a tal da classificação não faz sentido algum. O filme “It’s complicated”, em que a atriz Meryl Streep protagoniza um triângulo amoroso com Alec Baldwin e Steve Martin, também recebeu classificação R – nesse caso, porque Meryl Streep e Steve Martin fumam maconha e dão risada em uma das cenas. Mas eles não mascam nenhum baço ou vesícula, que eu me lembre. Acho que a plateia não ia achar graça nesse filme.