Preciosidades da verdadeira língua portuguesa, ou o êxtase em ênclise

Estadão

08 de junho de 2009 | 19h53

Aqui em Washington, tenho o privilégio de conviver com vários portugueses, ou tugas, como eles dizem. E o enriquecimento lexical é notável – os portugueses têm expressões excelentes para vários aspectos da vida. Entre parênteses, aspecto não é aspecto – é aspeto, sem pronunciar o cê (e agora, com a reforma, sem escrever o cê). Já facto não perdeu o cê com a reforma, porque fato é terno. Hã?

Os lusofalantes originais, aliás, estão furibundos com a tal reforma. Despediram-se a duras penas do pê em excepção e em adopção.

Os portugueses não morrem de fome – eles, paradoxalmente, ficam “cheios de fome”. Para aqueles que vêm de Lisboa, é linguagem corrente não concordar o advérbio com o adjetivo – “isto aqui é muita caro”, por exemplo.

Há grandes expressões, ou “bestiais”, melhor dizendo. Outro dia, comentei com um amigo que achava a Katie Holmes muito bonita.

– “Ela é banal de autocarro”, ele disparou. Ou, para leigos, “mulher bem comum, daquelas que a gente encontra no ônibus”. De borla é de graça, boleia é carona.

Além das piadas prontas, claro.

Dia desses, espiei uma colega portuguesa escrevendo um post sobre a dificuldade dos humoristas para fazer piadas com Obama. “Ninguém goza com Obama”.

E entrando nesse assunto mais, digamos, gráfico, descobri que os portugueses devem ser um dos poucos povos no mundo que têm orgasmo em ênclise – “estou-me a vir” é a frase por eles usada,contou-me a minha colega.

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