Pigou e a minha Coca Light, pérolas de Cheney e "Schadenfreude" à chinesa

Estadão

23 de maio de 2009 | 21h43

Coca Light – ou zero – é meu último vício. Eu, como muitos workaholics que pararam de fumar, sou movida a Coca Zero, já que não tomo café. E chiclé, ok, preciso de um chiclé para dar partida em vários textos.

Mas não é que meus vícios inofensivos estão ameaçados? Aqui nos Estados Unidos, Pigou é rei. O economista inglês Arthur Cecil Pigou está por trás da idéia de impostos que coibem alguns comportamentos nocivos, ou externalidades negativas, ao mesmo tempo em que reforçam o caixa público. Em sua homenagem, taxas sobre bebidas alcoólicas e cigarro são chamadas de impostos de Pigou – além de gerar receita para o governo, fazem um bem para sociedade.

E nesta hora de caixa apertado, nada como mais um impostinho de Pigou. Está ganhando força a idéia de taxar bebidas com açúcar, como Coca-Cola, Pepsi,Red Bull, Gatorade, que estão por trás da epidemia de obesidade do país. A idéia foi lançada como uma das formas de financiar a reforma do sistema de saúde.

Até aí nada de mais, acho mais que justo taxar uma coisa que faz mal à saúde. Mas por aqui, as coisas tendem sempre a escalar. Em NY, começaram proibindo o cigarro, depois baniram a gordura trans e chegou uma hora em que havia até regra contra andar de bicicleta sem por os pés no pedal (aliás, tema de matéria sensacional do Christopher Hitchens).

A próxima vítima era o dióxido de carbono – mas a idéia de um imposto sobre poluentes se transformou em uma lei de “cap and trade” aguada, cortesia do lobby do carvão limpo (que para mim é oxímoro) e outros poluidores.

Dessa maneira, tenho certeza que, mais cedo ou mais tarde, vão chegar no último refúgio dos aditos, a Coca Light. Certamente vão descobrir que o adoçante ou o gás da bebida é nocivo e também podia ganhar sua taxa de Pigou. O chiclé então, é alvo óbvio, com perdão da aliteração. Fonte de vandalismo público (isso é com vocês, que grudam o negócio embaixo da mesa), além de poluição sonora (é, mascadores que não fecham a boca aberta), o chiclé já já vai ganhar sua sobretaxa. E a nós, o que vai restar? Vamos todos voltar a fumar?

CHENEY – Ele mesmo faz piada com seu apelido, Darth Vader. Mas acho que o ex-presidente Dick Cheney não pode imaginar como ele se encaixa perfeitamente no papel de vilão (quase tão perfeitamente quanto o Michel Temer no papel de mordomo de filme de terror). Ele tem uma risada maldosa, alfineta o presidente mais popular da história, fica o tempo todo aterrorizando as pessoas com o espectro de um novo 11 de setembro. E como todo bom vilão, Cheney tem sacadas geniais, de um sarcasmo saboroso. Na quinta-feira, logo após Obama fazer seu discurso moderado e racional sobre Guantánamo e segurança, Cheney assumiu o pódio no American Enterprise Instite, reduto dos neocons renhidos.

Uma boa alfinetada foi para The New York Timnes, nêmesis de egressos do governo Bush. “A reportagem impressionou o comitê do Pulitzer, mas certamente não ajudou os interesses do país ou a segurança do nosso povo”,disse Cheney, referindo-se à reportagem em que o jornal revelou o programa de escutas telefônicas clandestinas do governo.

Outro foi sua interessante defesa do método conhecido como simulação de afogamento, que para ele não é tortura. “Chamar esse programa de tortura é caluniar os profissionais dedicados que salvaram milhões de vidas americanas, e retratar terroristas e assassinos como vítimas inocentes. Parece até que ele está falando de enfermeiros.

E Cheney não podia deixar de cutucar aqueles esnobes que se rendem à elite intelectual européiae desdenham sua “América Profunda”. “É fácil ser aplaudido na Europa pelo fechamento de Guantánamo, mas é difícil achar um a alternativa que ainda satisfaça as necessidades de justiça e segurança do povo americano.”

Concluindo senhor deputado – a revista The Economist, em sua nova coluna sobre a Ásia, fala sobre o “Schadenfreude” dos chineses em relação à derrocada econômica americana. Schadenfreude, em mandarim, é “xing zai le huo”, ou o sentimento de que a perda de outra pessoa é seu ganho, levando até a regozijo por causa do desastre alheio.

E nunca mais mencione manipulação do câmbio, senhor Tim Geithner.