Pelotao Nightmare em missao em Mangow

Estadão

26 de julho de 2009 | 12h38

Queridos leitores
vou postar a materia sobre a missao em Mangow, que saiu no Estado de hoje.

Base de Kala Gush, Nuristan, Afeganistão

Quando o capitão Luis “Ímã de Balas” Arriola subiu no MRAP, o veículo resistente a bombas, os outros soldados americanos brincaram. “Xi, o Ímã de balas está vindo com a gente, melhor nem sairmos da base.” Nas últimas vezes em que o capitão Arriola saiu em missão, os americanos foram atacados por insurgentes. Três semanas atrás foi uma bomba na estrada, que fez o Humvee à sua frente capotar. O atirador quebrou as duas pernas. Uma semana antes, eles foram alvo de uma granada.

Na quinta-feira, o capitão Arriola, do segundo batalhão da 77ª artilharia, era parte de um grupo de 28 soldados que se dirigia ao centro do exército nacional afegão em Mangow, a cerca de 10 quilômetros da base de Kala Gush.

Há exatamente um ano, o centro – uma casa depenada com dez soldados afegãos dormindo no chão – foi atacado pelo Taleban. O comandante afegão , Mohamad Ishak, matou o líder do Taleban local e mais dois insurgentes. Um de seus homens morreu no ataque.

Um ano depois, os americanos queriam demonstrar seu apoio aos afegãos. A missão era passar a noite de guarda no centro, além de levar sacos de areia para barreiras, arame farpado e munição. De quebra, a presença de 3 MRAPs e 2 ASVs (veículos blindados) deveria intimidar o Taleban, caso insurgentes estivessem planejando um ataque de retaliação – o irmão do guerrilheiro morto assumiu a liderança do Taleban no local.

O centro fica a apenas 7 quilômetros da fronteira com o Paquistão, no meio das montanhas da província de Nuristan, no leste do Afeganistão. Os insurgentes atravessam as montanhas na fronteira paquistanesa, atacam, e fogem de volta para a terra de ninguém que é Oeste do Paquistão. Esse é um dos principais problemas enfrentados pelo exército americano na guerra do Afeganistão.

O presidente Barack Obama está enviando mais 21 mil soldados para o país, elevando o efetivo americano no Afeganistão para 68 mil até 2010. A maioria dos soldados foi para o sul, onde a guerrilha Talebã está mais ativa. Mas com a ofensiva americana no sul e o aperto do exército paquistanês, cresceu o número dos ataques no leste. Até agora, o mês de julho teve o maior número de mortes de soldados americanos desde o início da guerra em 2001 – foram 31 baixas. A maioria das mortes, 16, ocorreu no leste.O número de bombas de estrada (IEDs) também vem aumentando de forma expressiva – no sul, foram 1217 neste ano, diante de 683 no mesmo período do ano passado. No leste, o número subiu de 604 em 2008 para 811 em 2009.

Poucos minutos antes de partir em direção a Mangow, o líder do pelotão, tenente Anthony Great, reuniu seus homens para um alerta de inteligência. “Acabei de receber relatos de que há duas IEDs escondidas na estrada até Mangow, cada uma de 16 quilos, suficientes para um bom estrago. Então vamos mandar na frente um Raven (avião não-tripulado para reconhecimento da área) para limpar a rota, e ninguém mais vai de Humvee, vamos só de MRAPs e ASVs.”

A estrada é onde os americanos estão mais vulneráveis. Os MRAPs foram criados porque muita gente estava morrendo quando bombas atingiam os Humvees, que oferecem pouca proteção. Mas as estradas no Afeganistão são boas só para quem anda de burro. Para um MRAP de quase 3 metros de altura, são um perigo – está capotando um a cada 72 horas, diz um comandante.

Agora, o Pentágono está tentando adaptar os veículos para o país. Afinal, os MRAPs foram feitos para as estradas planas e bem mais desenvolvidas do Iraque, e trazidos direto para as montanhas do Afeganistão.

Dentro dos MRAPs, os soldados vão se falando o tempo inteiro no rádio, principalmente em busca de pessoas suspeitas nas montanhas, de onde podem detonar uma bomba usando um celular.

“Nightmare 6, Nightmare 6 (nome do pelotão), homem de preto às 9 horas em cima dessa construção….”

“Ok, estou de olho nele”

“Cuidado, tem sete crianças à frente”

“Olha, esse menorzinho parece o meu menino”

“Quantos filhos você tem?”

“Dois, a minha menor tem nove meses, já está se arrastando naqueles andadores.”

Com as estradas horríveis e os veículos enormes, foi quase uma hora para chegar ao centro regional do Exército Nacional Afegão – uma casa sem janelas, cheia de marcas de tiros, com colchões espalhados pelo chão. São dez soldados lá, contando com o comandante. Os afegãos receberam os americanoscom uma refeição de luxo – mataram três frangos, ensoparam, e serviram com pão, que faz as vezes de colher.

Como exceção, o comandante afegão convidou a repórter para se sentar no chão junto com os homens e compartilhar da refeição – normalmente, uma mulher não comeria junto.

Os soldados americanos montaram posições de guarda, começaram a por o arame farpado e as barreiras de sacos de areia Hesco.

“De que tipo de ajuda você precisa?” perguntou o capitão Christopher Carpenter, comandante da companhia.

“Preciso de mais munição e mais armas”, disse o comandante Ishak.

“Quais as chances de vocês conseguirem metralhadoras do governo?”

“Eles prometem, prometem, e nunca dão nada.”

Os soldados afegãos tinham as armas coladas com fita crepe vermelha, estavam sem capacete ou colete, e alguns fumavam haxixe. No centro do exército afegão, água vem do poço e a única ilunimação é uma lâmpada acoplada a uma bateria de carro. Não tem banheiro, tem um buraco no chão de terra. A cachorra Bedar “sempre alerta” am dari, fazia a alegria dos soldados.Os americanos, enquanto isso, ficavam o tempo todo com sua parafernália – capacete, óculos de visão noturna, etc.

Também fazia parte da missão um soldado à paisana, que faz o elo com os afegãos – um militar treinado na língua local e costumes, que usa barba e lenço típico afegãos.

Depois de muito chá e conversa, alguns foram dormir no teto. Outros ficaram de guarda com seus Night Vision Goggles – que dão uma visão semlhante a filme de 3D, mas sem a noção de distância, por isso é comum os soldados tropeçarem.

Tudo calmo. O dia amanheceu e os soldados lançaram um Raven para ver se a barra estava limpa.

“Eu dava a vida por um Starbucks, um café e um muffin”, dizia um cabo.

“Eu preciso muito de um banho”, dizia o outro.

Antes de ir embora, mandaram outro Raven para fazer reconhecimento.

A entourage americana partiu as 5h. Não se sabe se, depois que os americanos forem embora, os Talebans vão aproveitar para atacar em retaliação. É sempre o risco de trabalhar junto com as tropas estrangeiras. “As pessoas que atacam vêm das montanhas, o Taleban aproveita que acabou a neve e vem no verão”, diz Ishak. Para o comandante Ishak, vai demorar muito até que os americanos possam deixar o país. “Ah, vai levar pelo menos uns 10 anos, para tudo ficar pacífico.”
As 6h, o comboio de MRAPs e ASVs cruzou o portão da base Kala Gush, sãos e salvos.

Dessa vez, o “Ímã de Balas” não fez jus a seu apelido. Que bom.

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