Para Washington, BRICs não tem B

Estadão

08 de junho de 2010 | 11h20

Na semana passada, o presidente Barack Obama anunciou que vai visitar a Índia em novembro. A Rússia e a China ganharam visitas oficiais de Obama no ano passado. Ou seja, dos chamados BRICs, ele só não visitou o Brasil. E não há previsão.
Na realidade, o Brasil nem é parte dos BRICs, para o governo americano. Uma leitura cuidadosa da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, divulgada há 10 dias, mostra que os Estados Unidos sempre agrupam Rússia, Índia e China, os “centros-chave de influência”, enquanto o Brasil aparece ao lado de Indonésia e África do Sul , “países de influência crescente”. “Algumas relações bilaterais – como as relações dos Estados Unidos com China, Índia e Rússia – serão críticas para construir cooperação mais ampla em áreas de interesse mútuo”, diz a estratégia, sem mencionar o B dos BRICs..Enquanto o Brasil é “parceiro importante”, a Índia tem “parceria estratégica”, e a relação com a China, que com os EUA compõe o G2, “é essencial para abordar os grandes desafios do século XXI”. Tudo isso é jargão diplomático, mas as sutilezas ajudam a pintar o quadro geral.
A diferença no discurso da Casa Branca para a Índia e para o Brasil mostra como os canais de comunicação entre Washington e Brasília estão entupidos. Índia ganhou o primeiro jantar oficial da Casa Branca dos Obamas, em novembro. Na semana passada, realizou-se uma reunião do diálogo estratégico Índia-Estados Unidos. Na ociasião, Obama disse que “as relações com a Índia são as maiories prioridades” de seu governo, “a parceria que define o século XXI”, “Índia é indispensável para o futuro que buscamos”. A secretária Hillary é “uma grande admiradora da Índia”, nas palavras de Obama. E para ela, a relação com a Índia “é um assunto do coração, não apenas da cabeça”.Bem menos carinho Hillary reservou para o Brasil há duas semanas. Chamou o Brasil de “parceiro responsável e eficiente em vários assuntos”, mas não deixou de destacar “as sérias divergências” em relação ao Irã. Foram muitos os desacordos nos últimos tempos – bases americanas na Colômbia, golpe em Honduras, mas o Irã certamente é o maior irritante.
Os dois países se apressam em dizer que são “parceiros” e a relação “envolve muitos outros aspectos”. Mas ninguém ainda levantou a bandeira branca.
Hillary Clinton, aliás, aproveitou para alfinetar o Brasil em seu primeiro dia de giro pela região. Depois de se reunir com o presidente peruano, Alan Garcia, Hillary voltou a tocar no ponto nevrálgico das sanções contra o Irã. “Irã vai tentar de novo dar algum golpe” para adiar as sanções, disse Hillary. Para a secretária de Estado, o acordo de troca de combustível nuclear costurado pelo Brasil e Turquia foi apenas um “golpe do Irã” para evitar as sanções, e o governo brasileiro foi usado.

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