Os verdadeiros "Hurt Locker" no Afeganistão

Estadão

02 de fevereiro de 2010 | 13h02

Assisti ao filme “Hurt Locker”, um dos principais indicados ao Oscar deste ano,em julho do ano passado. Era uma plateia cheia de parentes de soldados lutando no Iraque e no Afeganistão, e veteranos das duas guerras. O ator principal, Jeremy Renner, veio falar com a plateia ao final do filme sobre seu convívio com soldados para se preparar para o filme – em Hurt Locker, Renner é um especialista de uma Explosive Ordinance Disposal Unit, uma equipe de elite que desarma bombas.

O filme é tão impactante, que cheguei em casa e comecei a chorar descontroladamente. Não se trata de apologia da guerra. É apenas uma crônica do dia a dia desses caçadores de bomba em uma guerra onde o inimigo é tão elusivo, que pode estar a seu lado, um velhinho puxando um carrinho com arroz, com uma bomba disfarçada. Na época, fiz uma resenha para o Caderno 2 (copio aqui embaixo).

Uma semana depois, embarquei para o Afeganistão. E lá, na base de Connelly, no leste do Afeganistão, fronteira com Paquistão, conheci os verdadeiros Hurt Locker.

Esses soldados têm uma das funções mais perigodsas do exército – eles vão na frente de todo mundo, fazendo uma varredura, para garantir que não há bombas de estrada, as letais IED (improvised explosive devices).

“Os IEDs ainda são menos sofisticados do que os do Iraque, mas os insurgentes estão aprendendo”, diz o sargento Andrew Gernux, líder de um time de EOD na região de Kogyani. Desde que chegou ao Afeganistão, há dois meses, Gernux já desarmou ou explodiu 12 IEDs. Especialista em IEDs há seis anos, ele esteve quatro vezes no Iraque. “Minha mulher e minha mãe odeiam meu emprego, por razões óbvias.”

Eles acharam que o Hurt Locker romanceia um pouco a vida deles. Não, ninguém guarda bombas desativadas debaixo da cama, como lembranças.

Mas sim, é mesmo uma rotina perigosíssima. E as bombas ficam cada vez mais avançadas. No Afeganistão, o Taleban tem um estoque interminável – todas as minas não explodidas na época da invasão soviética, que eles usam para fazer ssuas bombas de estradas., me contou o capitão Ryan Loomis, o líder do time de EOD. “Está cheio de campos minados no país e há sobras de todas as guerras, os Taleban simplesmente vão lá e pegam os explosivos, é de graça”. Loomis coordena nove esquadrões antibomba, times que passam por um treinamento especializado de um ano na Flórida para desarmar explosivos de todos os tipos.

Com a multiplicação dos IEDs, os times antibomba vêm usando cada vez mais seus robôs Talon e Pacbot, que são pilotados com joysticks para manipular os explosivos. Em última instância, quando não é possível manipular os explosivos à distância, os especialistas usam seu “escafandro” antibomba, o “EOD 9 suit”. “Tentamos fazer tudo de forma remota, porque mesmo o suit só protege contra estilhaços, não contra a explosão”, diz Loomis.

Quando não usam “sobras” de outras guerras, os insurgentes fazem os explosivos em casa mesmo, usando fertilizantes. Já para detonar, eles usam mais placas de pressão, que acionam o explosivo quando o carro passa por cima, do que celulares, que eram os mais comuns no Iraque.

HURT LOCKER – RESENHA

Na cena inicial do filme “The Hurt Locker”, da diretora Kathryn Bigelow , um destacamento de elite do exército americano chega a um canto imundo de Bagdá para desativar um explosivo escondido embaixo de um monte de lixo. O especialista em “improvised explosive devices” (IEDs, ou dispositivos explosivos improvisados) manobra cuidadosamente um robozinho que vai se aproximando da bomba que ele precisa desarmar. Mas no meio dos pedregulhos, o robozinho perde uma roda. O especialista, sargento Matt Thompson (Guy Pearce), veste seu “escafandro” de proteção contra bombas e caminha lentamente para o monte de lixo. Enquanto isso, alguns iraquianos observam. Muitos são apenas moradores da cidade pobre, cansados da guerra e da presença dos americanos. Outros podem ser insurgentes, que com o simples aperto de uma tecla de seu celular, podem detonar a bomba.
Se desse para esquecer de respirar, metade da platéia tinha morrido sem ar até o final da cena.
O filme de Bigelow mostra essa batalha assimétrica que os Estados Unidos estão perdendo. O poderoso exército americano, com seus caças não-tripulados, pilotados como video-games, e destemidos especialistas em explosivos, estão levando uma sova de pobres agricultores e suas bombas caseiras feitas com frasco de desodorante e celulares de US$ 30
O foco do filme é um destacamento do exército que passa a vida tentando desativar essas bombas improvisadas, a principal arma no Iraque. O ator Jeremy Renner (Sargento William James) é o líder do destacamento –um superespecialista que atua com precisão de cirurgião para desarmar bombas e guarda os detonadores dos explosivos como lembrança. O sargento James adora desafiar o destino e testar seus limites. Seus companheiros são o sargento JT Sanborn (Anthony Mackie), que respeita as regras e muitas vezes bate de frente com a temeridade de James, e o cabo Owen Eldridge (Brian Geraghty), boa-praça e ingênuo, doido para ir para casa.
The Hurt Locker é baseado no roteiro do jornalista Mark Boal. Em 2004, Boal passou várias semanas “embutido” com destacamentos de especialistas em bomba em Bagdá, seguindo os movimentos desses soldados para escrever uma matéria. “A experiência no Iraque me impressionou muito; as pessoas não têm ideia sobre como esses caras vivem e o que eles estão enfrentando;”, disse. Boal.
A diretora fez filmes de ação como “K-19: The Widowmaker” , “Strange Days” e “Point Break” Mas só com The Hurt Locker ganhou consagração da crítica. Para A.O.Scott, crítico do The New York Times, trata-se do “melhor filme não-documentário sobre a guerra no Iraque”. E também, como ele brinca mais para frente: “Se Hurt Locker não for o melhor filme de ação do verão, eu prometo explodir meu carro.”
Depois de uma série de filmes professorais sobre o atoleiro do Iraque que foram fracasso de bilheteria, “The Hurt Locker” consegue ser o filme que menos faz proselitismo sobre a futilidade da guerra, e o que melhor traduz a falta de sentido do conflito americano – tanto no Iraque, como no Afeganistão.
Ao retratar o dia-a-dia dos destacamentos que desarmam bombas, “The Hurt Locker” mostra a dimensão do buraco em os os EUA se enfiaram. Em poucas palavras, os soldados nunca sabem quem é o inimigo. Muitas vezes, o inimigo é o velhinho simpático levando uma bomba feita com uma lata de Nescau que ele arrasta no seu burrico.Como resultado, os soldados vivem numa paranóia constante. É impossível descobrir quem é civil e quem é insurgente.
“Tem muita gente olhando para cá, vamos embora”, diz o sargento Sanborn, enquanto o protagonista se embrenha em um carro bomba, tentando desativar explosivos que podem levar o prédio inteiro pelos ares..
Os EUA estão saindo do Iraque. E sim, a situação está bem melhor. Em vez de morrerem 800 por mês, há um ataque por semana, onde morrem 60 . Mas isso é ganhar é guerra
Muitos dos soldados não sabem o que é a vitória e se resumem a pensar em como se manter vivos. É uma contagem regressiva dos dias que faltam para eles voltarem para casa. Como é que se ganha essa guerra, em que o inimigo é esquivo?
“A guerra é uma droga” . Essa frase do ex-correspondente de guerra Chris Hedges abre o poderoso filme de Kathlyn. E só o vício da guerra pode explicar o que move esses soldados nessa batalha sem sentido, onde qualquer coisa pode ser uma bomba, e qualquer um pode ser o inimigo.
O sargento James volta para casa depois do fim de seu turno no Iraque. Uma cena típica, até um pouco clichê, mostra sua perplexidade diante das infinitas possibilidades de escolha do corredor de cereais no supermercado.
James não aguenta. Decide voltar para o “barato” da guerra e enfrentar o “hurt locker”, expressão que significa “a expectativa de uma dor lancinante”..

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