Os últimos dias de Guantánamo

Estadão

02 de março de 2008 | 00h57

Foto: Patrícia Campos Mello

Na semana passada, passei quatro dias na base naval americana em Guantánamo, Cuba. O governo americano está levando jornalistas como parte de sua ofensiva de relações públicas – para mostrar que as condições melhoraram muito desde as imagem escabrosas do Campo Raio X, aquele com gaiolas ao ar livre e prisioneiros de laranja, encapuzados.

Tive acesso aos campos 5 e 6, onde os EUA mantêm prisioneiros tidos como terroristas perigosíssimos. mas o Pentágono não abre o campo 7, onde está Khalid Sheik Mohammad, acusado de ser um dos idealizadores dos atentados de 11 de setembro. O campo 7 tem localização secreta e sua existência só foi revelada há sete meses.

Não podemos falar com os prisioneiros nem fotografá-los. Do que pudemos ver, as condições são, mesmo, bem melhores do que muita prisão no Brasil. Os detentos têm celas com ar-condicionado, por exemplo.

Mas o problema não é mais de maus-tratos. Muitos desses presos estão em Guantánamo há seis anos sem nenhuma acusação formal e não têm nenhuma perspectiva de julgamento. É o maior dos pesadelos kafkianos.

Em último ano de mandato, o presidente George W Bush quer acelerar o processo e limpar um pouco do estrago que Gitmo fez na reputação americana. Para tanto, prepara-se para julgar seis presos em abril ou maio. E promete julgar até 80 até o fim do ano.

Mas os advogados afirmam que os julgamentos serão apenas show político. A principal crítica é que os juízes poderão aceitar confissões obtidas por meio de tortura. O governo americano admitiu que três dos acusados sofreram o chamado waterboarding (simulação de afogamento).

Tenho certeza de que alguns dos terroristas mais hediondos do mundo estão presos em Guantánamo. Mas também tenho certeza de que, se não houver um julgamento justo para os prisioneiros, e forem aceitas provas obtidas com tortura, os EUA vão se rebaixar ao nível de alguns dos piores ditadores do globo.

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