Obama, um ano depois – do messiânico ao prosaico

Estadão

19 de janeiro de 2010 | 21h44

Há exatamente um ano, eu saí de casa às 7 da manhã em um dos dias mais frios que Washington já viveu. O termômetro marcava 8 graus abaixo de zero, mas a sensação térmica era de uns 20 abaixo. Ao lado da minha amiga Rita Siza, correspondente do jornal português Público, caminhamos uns três quilômetros até o Capitólio, acompanhando a multidão agasalhada. Com cobiçados ingressos, iríamos ver de perto a posse do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, no dia 20 de janeiro de 2009.

A cidade parou. Eram mais de 4 milhões de pessoas nas ruas, tudo para ver Barack Hussein Obama jurar sobre a Bíblia de Lincoln e assumir a presidência.Apesar do frio paralisante, uma euforia tomava conta de todo mundo, até dos jornalistas, nós, supostamente neutros.Admito, com vergonha, que foi difícil não se contagiar. Tudo iria mudar. Guantánamo, crise econômica, eixo do mal, tortura, falsas armas de destruição em massa no Iraque, arrogância unilateralista, tudo isso ficava para trás.

Tive a oportunidade de estar num grupo de jornalistas que acompanhou a campanha eleitoral e a candidatura Obama desde o começo. Em Chicago, no dia 4 de novembro, ao som de Stevie Wonder “Signed, Sealed, Delivered”, o altamente improvável aconteceu – Obama foi eleito, em um país que viveu segregação racial durante décadas. Na medida em que os resultados das urnas iam sendo divulgados, as pessoas se abraçavam e choravam.

Um ano depois, o sonho não acabou . Mas para os 53% dos americanos que votaram em Obama e achavam que o novo presidente americano ia caminhar sobre a água e fazer a terra parar, houve um choque de expectativas. A euforia da eleição de Obama foi sufocada por um desemprego a 10% que teima em não cair, uma guerra sem fim no Afeganistão, uma reforma da saúde que se arrasta pelo Congresso, e as realidades bem menos poéticas de se governar um país idiossincrático. Não, não vai dar para fechar Guantánamo no dia 22 de janeiro, como ele havia prometido. Conversar com o Irã não adiantou nada, pelo menos ainda não. Israelenses e palestinos continuam se matando. E embora Obama tenha estendido a mão para os hostis, “abandonando o punho cerrado”, como prometeu no dia da posse, um major matou 13 pessoas em Fort Hood, em novembro, e um nigeriano tentou explodir um avião no Natal.

Barack Obama assumiu o poder há um ano com a aura de um messias e a popularidade de um Beatle. O 44o presidente dos Estados Unidos tomou posse com uma taxa de aprovação de 69% e grande popular para adotar sua ampla agenda de reformas. Porém, em 12 meses de governo, sua popularidade caiu para 46%, de acordo com a pesquisa da CBS. Os eleitores independentes, essenciais para a vitória de Obama, debandaram, com medo do governo Leviatã que não pára de se expandir, esbarrando nas suspeições históricas dos americanos, como disse o colunista David Brooks.

Obama não tinha escapatória – ao herdar a maior recessão desde a Depressão de 30 e duas guerras, era inevitável que tivesse de expandir o papel do Estado. E como conseqüência, o déficit inchou ainda mais e o povo americano teve a reação pavloviana de desconfiança no excesso de intervenção do governo na sociedade livre.

Obama “o mito” se transformou, ao longo desses 12 meses, em Obama “o presidente de carne e osso”, com todas as limitações do posto e da pessoa. Isso era inevitável. Mas foi, e continua sendo, doloroso.

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