O Taleban do Texas e a ascensão dos extremistas nos Estados Unidos

Estadão

21 de março de 2010 | 11h15

Queridos leitores
Passei quatro dias no chamado Cinturão da Bíblia dos EUA fazendo uma matéria sobre extremistas religiosos. Abaixo, a matéria.
– Governo Obama energiza grupos extremistas ao redor dos EUA
– Em Amarillo, o Taleban do Texas aterroriza gays, strippers e outros “pecadores”

Eles ficaram conhecidos como o Taleban do Texas. O grupo extremista cristão Repent Amarillo (Arrependa-se Amarillo) vem aterrorizando esta cidade no coração do Cinturão da Bíblia no Texas. Depois de traçar um “mapa de guerrilha espiritual” com todos os estabelecimentos anticristãos de Amarillo – bares gay, casas de swing, casas de strip-tease, grupos pagãos, ciganas que leem mão, igrejas que aceitam gays, apresentações de música heavy metal – eles foram atrás dos ímpios com cruzes de madeira, cartazes, alto-falantes, e muita intimidação. Já conseguiram fechar a casa de troca de casais Route 66 e o bar de strip-tease Crystal Pistol. E sua campanha de intimidação resultou na demissão de pelo menos dois “pecadores”, que foram “denunciados” pelo Repent Amarillo para seus empregadores.
O “pastor” David Grisham, que trabalha como segurança em uma fábrica de armas nucleares, é o líder do “exército de Deus” Repent Amarillo. “Eu era um fornicador e um adúltero”, diz Grisham. “Mas agora estou expondo todos os pecadores, vamos recuperar nossa cidade para Jesus Cristo.”
O grupo começou a atuar no final de 2008, época em que o presidente Barack Obama foi eleito. Não se trata de coincidência. A eleição de um presidente negro, de esquerda, que apoia o direito ao aborto e a união de homossexuais, energizou grupos extremistas como o Repent Amarillo ao redor do país. “Nosso país está se afastando de Deus, estamos nos transformando em uma sociedade devassa e o presidente Obama é um sintoma disso”, disse Grisham, para quem Obama é o presidenta mais liberal que os Estados Unidos já tiveram. “Por isso os evangélicos estão ganhando as ruas para protestar e rezar; um dos grandes erros dos cristãos na América é seu silêncio e apatia, eles deixaram o demônio tomar conta da nossa nação.”
Em sua cruzada contra pecadores de todos os naipes, David é acompanhado de Tracy Grisham, sua quarta mulher, também uma “ex-adúltera” confessa, que atualmente trabalha como técnica de raio xis no hospital de Amarillo. “Big” John Leinen, o terceiro da hierarquia, era integrante de uma gangue e agora se dedica em tempo integral a perseguir gays, muçulmanos, ambientalistas, cinemas pornô. “Nós protestamos todo santo fim de semana, faça chuva ou faça sol”, diuz Tracy. O grupo é ligado ao Raven Ministries, uma instituição evangélica conservadora que reúne milhares de integrantes ao redor dos Estados Unidos.
O Repent Amarillo ficou famoso quando liderou uma campanha de boicote à então candidata a prefeita de Houston, Annise Parker. Essa batalha os Repent Amarillo perderam: Annise se tornou a primeira lésbica assumida a governar uma grande cidade nos Estados Unidos.
Mas eles conseguiram acabar com a vida de Monica e Mac Mead, donos do clube de swing Route 66. Monica é uma avó de 47 anos, que está casada há 12 anos com Mac, motorista de caminhão.Ela e o marido promoviam festas de swing – troca de casais – com amigos no Route 66, casa de eventos da texana. Eram todos moradores de Amarillo, caminhoneiros, taxistas, professoras primárias e donas de casa de meia idade.
Os Repent Amarillo descobriram a existência do Route 66 e passaram a perseguir os frequentadores. Com suas roupas militares, postavam-se no estacionamento com alto-falantes dizendo : “vocês vão para o inferno!”. “Estamos aqui para iluminar a escuridão”, gritava Grisham. “As pessoas de Amarillo não sabem do pecado que ocorre neste lugar, isso é adultério, é errado, espalha doenças venéreas e aborto.” Russell Grisham, filho de David de 20 anos que já foi condenado por hacking, postou na internet nomes e fotos dos swingers. Eles anotaram as placas dos veículos dos frequentadores e começaram a ligar para o local de trabalho das pessoas e denunciá-las “O senhor sabia que o seu funcionário participa de um grupo de troca de casais?” Dois foram despedidos.
Exposição era tudo o que os frequentadores da casa de swing não queriam nesta cidade ultra conservadora. “Aqui, todo mundo é republicano, tem armas e não se anda dois quarteirões sem ver uma igreja”, diz a advogada Cristal Robinson. Em 2008, o republicano John McCain obteve quase 80% dos votos na região onde fica Amarillo, o Texas Panhandle. Dos 190 mil habitantes de Amarillo, 78% são brancos. Aqui, uma das principais indústrias é “venda de fianças com desconto”, todo mundo fuma em tudo quanto é lugar e não se vende remédio de resfriado sem receita médica, porque os ingredientes são usados para fabricar a droga metanfetamina.
É o tipo de cidade onde o racismo sobrevive firme e forte. “Amarillo é uma cidade conservadora?”, perguntou a reportagem do Estado ao motorista de taxi Ray Cushin. “De jeito nenhum, agora está cheio de casamento inter-racial, um absurdo. Um monte de mulher branca casando com negros”, disse Cushin, sem pestanejar. E emendou: “Isto aqui são os Estados unidos, Nós temos liberdade de expressão e eu digo minha opinião a hora que quiser.” Cristal é uma das poucas pessoas da cidade a defender abertamente os alvos da guerrilha espiritual do Repent Amarillo, e está processando o grupo por “arruinar a empresa” de Monica e Mac.
A filha de Monica ficou sabendo do “estilo de vida” da mãe depois de o caso aparecer no notíciário da TV. Ela nunca mais falou com a mãe. Monica não vê seus quatro netos há mais de seis meses. “Minha vida se tornou muito solitária, alguns amigos estão me evitando porque agora todo mundo sabe do clube de troca de casais”, disse Monica. Ninguém mais aluga o Route 66 para festas. Monica declarou falência e o prédio foi posto á venda. .
O Repent Amarillo se animou com o fechamento do Route 66. “Era o troféu da imoralidade em Amarillo, que foi exposto e morreu”, disse Grisham. No ano passado, eles conseguiram impedir a estreia da peça Bent, sobre perseguição de homossexuais na Alemanha nazista. Na véspera da estreia, ligaram para os bombeiros e denunciaram a falta de uma licença no estabelecimento.Em novembro, depois de muitos protestos em frente ao bar de strip-tease Crystal Pistol, denunciaram irregularidade na licença do estabelecimento, que foi fechado. Todo fim de semana, eles fazem manifestações e “tiram do armário” frequentadores de três ou quatro estabelecimentos “anticristãos”.
A polícia não faz nada, argumentando que o Repent Amarillo está exercendo seu direito à livre expressão e que os protestos são realizados em propriedade pública. . :“A Primeira Emenda está viva e bem em Amarillo, e Amarillo é forte o suficiente para permitir que todos exerçam seu direito à livre expressão”, diz Marcus Norris, secretário de Justiça de Amarillo. “Eu já defendi vários casos de Primeira Emenda, mas isso não é liberdade de expressão, é intimidação”, rebate Cristal.
Diante do impasse, alguns moradores já pensam em formar milícias para se defender do Repent Amarillo. . “Todo gay de Amarillo deveria ter uma arma, para se proteger”, diz Roy Rhyne, que trabalha no hospital batista, é gay e já foi assediado pelos extremistas. “Eu morro de medo de ele (David Grisham) pegar alguma coisa da fábrica de armas nuclear e vir aqui, a gente nunca sabe o que esses doidos podem fazer”, diz Richard Rhone, de 46 anos. Ele e Micky Winks, de 41, seu parceiro, são donos da lanchonete gay Furrby’s.

– Grupos extremistas antigoverno aumentaram 244% no governo Obama
– Especialistas temem novo atentado de Oklahoma City
Os Estados Unidos vivem uma explosão no número de grupos extremistas, levando especialistas a temer uma repetição do atentado de Oklahoma City.O número de grupos antigoverno, chamados de patrióticos, passou de 149 em 2008 para 512 no final de 2009, um aumento de 244%, segundo estimativa do Southern Poverty Law Center, instituto que monitora atividade de grupos extremistas. Os principais motivos são a crise econômica e o fato de o país ter eleito um presidente de esquerda e negro, diz Heidi Beirich, diretora de pesquisas do Southern Poverty Law Center.
Para Heidi, está havendo uma assustadora repetição dos anos 90, quando se multiplicaram os “grupos patriotas” durante o governo Clinton, como reação às políticas de esquerda adotadas pelos democratas. A radicalização culminou no atentado de Oklahoma City. Nesse atentado a bomba, o extremista branco Timothy McVeigh destruiu um edifício do governo em Oklahoma City, provocando a morte de 168 pessoas – foi o segundo maior atentado em solo americano, só perdendo para os ataques de 11 de setembro.
Segundo Heidi, alguns dos integrantes dos grupos terroristas domésticos dos anos 90 estão voltando à ativa agora. “Estamos muito preocupados com uma repetição do atentado de Oklahoma”, disse Heidi.
Os grupos patriotas se opõem a tudo quanto é intervenção do governo. Eles se alimentam de teorias conspiratórias (como os “birthers”, que acreditam que Obama nasceu no Quênia e por isso não pode ser presidente) e estão revoltados “com tudo isso que está aí” : pacotes de estímulo do governo Obama, déficit crescente, reforma do sistema de saúde, resgate de Wall Street, e os atuais ocupantes de cargos políticos
Eles têm sido encorajados até pela grande imprensa e políticos tradicionais. Glenn Beck, apresentador da Fox, frequentemente exorta os americanos a fazerem alguma coisa contra a ampliação do papel do governo. Michele Bachman, deputada republicana de Minesotta e ídolo do Tea Party, disse que queria “as pessoas de Minesotta armadas e perigosas” para lutar contra as propostas de legislação para reduzir aquecimento global
“Estamos no meio de uma das maiores rebeliões populistas de direita da história dos Estados Unidos”, escreveu Chip Berlet, analista que estuda a direita americana. “Vemos pessoas que estão revoltadas e cada vez mais ressentidas; elas estão enfurecidas com a máquina burocrática federal, os programas sociais de esquerda e políticas como casamento gay, reforma do sistema de saúde e das leis de imigração, aborto.” O colunista Frank Rich, do The New York Times, chamou esses extremistas e seus apoiadores na política e na mídia de o “Eixo dos obcecados e dementes.”
Nos últimos meses, foram vários os incidentes antigoverno. No dia 4 de março, o californiano John Patrick Bedell disparou contra dois guardas do Pentágono em plena hora do rush. No mês passado, um homem fez um ataque suicida contra um prédio do imposto de renda no Texas para protestar contra impostos. Joseph Stack jogou seu avião pequeno contra o prédio, causando sua morte e a de um funcionário. Em junho passado, um neonazista matou um segurança do museu do Holocausto, em Washington. Em comum, todos esses extremistas estavam revoltados com o governo de alguma maneira e professavam suas visões “patrióticas” online. Segundo especialistas, aliás, a internet tem funcionado como uma perigosa “câmara de eco” – reúne pessoas que partilham das mesmas opiniões extremas e acaba reforçando e ampliando essa visões radicais.
O número total de grupos extremistas nos EUA é de 932.Houve uma redução no número de neonazistas no país, porque um dos principais grupos foi desmantelado após a prisão de seu líder. Mas radicais cristãos, grupos patriotas antigoverno, anti-imigrantes e racistas como a Ku Klux Klan estão todos crescendo.. O Texas é o Estado que reúne o maior número de grupos de ódio, 52, seguido do Michigan, com 47, e Califórnia, com 22.
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