O passado de Zoellick o condena

Estadão

31 Maio 2007 | 13h10

Não sei bem se estamos avançando no quesito presidente do Banco Mundial. Saiu o falcão que ajeitava o cabelo com cuspe e usava meias furadas em mesquitas turcas, entrou o falcão sub-do-sub-do-sub, que manda o Brasil fazer negócios com a Antártida.

A indicação de Robert Zoellick, ex-representante comercial dos EUA, para substituir o queimado Paul Wolfowitz na presidência do Banco Mundial foi amplamente comemorada. Vários editoriais laudatórios. Podem dizer os cínicos – é, a base de comparação era baixa. Mas, por mais que a substituição de Wolfie por qualquer objeto não inanimado cause alívio, é bom não esquecer as credenciais de Zoellick.

Sim, é verdade, ele é inteligente, tem expertise internacional, bem mais que Wolfowitz, foi bastante eficiente como segundo de Condi Rice no Departamento de Estado, avançou (e depois recuou, está certo) em negociações com a China, foi ativo participante na rodada Doha.

Mas apesar de Zoellick ter ressaltado seu compromisso com as instituições internacionais em seu discurso de ontem, ao lado do presidente George W. Bush, seu passado o condena.

Zoellick foi o principal promotor dos tratados bilaterais de comércio perseguidos com afã quase fanático pelo governo Bush (antes de perder o Congresso para os Democratas, claro). Os tratados bilaterais – chamados de tigela de espaguete pelo über-especialista em comércio Jagdish Bhagwati, porque são um emaranhado que confunde e atravanca – são um dos grandes responsáveis pelo solapamento do sistema multilateral de comércio.

Digamos que Zoellick compartilha com colegas como John Bolton, ex-embaixador dos EUA na ONU, e Wolfie o pouco apreço pelo multilateralismo, pelo menos nesse tópico.

Já se tornou folclórico o fato de Zoellick ter insinuado que o Brasil seria obrigado a fazer negócios com a Antártica se continuasse resistindo à Alca. Ao que o presidente Lula disse – “Não vou responder ao sub do sub do subsecretário americano.”

Mas pouco lembrada é outra pérola de Zoellick, disparada durante a negociação do tratado de propriedade intelectual (Trips) dentro da Rodada Doha. O então representante de comércio americano se opôs à claúsula que previa licença compulsória de remédios em países em desenvolvimento para casos de emergência de saúde pública (recurso usado recentemente pelo Brasil para droga anti-aids da Merck). Ao explicar sua oposição em carta aos ministros, no fim de 2002, Zoellick saiu-se com esta: “alguns membros da OMC querem que doenças como obesidade, asma diabetes e até Viagra sejam incluídos”.

Ou seja, ele se opôs à medida que dá livre acesso a remédios anti-aids e malária a países da África , por exemplo, para proteger a patente do Viagra.

Pois é, esperemos que o sub-do-sub-do-sub não guarde rancores contra o Brasil. Ou podemos ver a proposta de alguns conservadores de redução de empréstimos do Banco Mundial para países de renda média ganhar um impulso extraordinário.

O oráculo conservador, The Wall Street Journal, em editorial/orientação a Zoellick hoje, questiona: “Por que emprestar para o México e o Brasil, dois países que podem facilmente obter recursos no setor privado?”