O fantasma de 37 e a encruzilhada da política monetária dos EUA

Estadão

03 de setembro de 2009 | 11h35

Durante os últimos meses, o maior medo dos economistas e formuladores de políticas nos Estados Unidos era mergulhar em uma reedição da Grande Depressão de 30. Agora, o grande fantasma é o ano de 1937.

O Fed e a Casa Branca estão sendo pressionados para revelar sua “estratégia de saida”. O Tesouro e o Fed adotaram medidas audaciosas e heterodoxas, com um aumento sem precedentes da liquidez, juros perto de zero e expansão do balanço do
Banco central.

Com isso, o governo Obama evitou uma desaceleração catastrófica da economia.
Mas agora republicanos e democratas moderados começam a clamar por uma estratégia de saída. Está na hora de começar a normalizar a política monetária e fiscal, já que o desastre foi evitado. O déficit do orçamento deste ano será de US$ 1,58 triilhão, o equivalente a 11,2% do PIB. A única vez em que os EUA tiveram um déficit dessa magnitude foi durante a Segunda Guerra Mundial. Inflada pelos pacotes de estímulo à economia e resgates de bancos, a dívida do país já corresponde a 56% do PIB, primeiro ano em que o endividamento americano ultrapassará os 50% do PIB desde a Segunda Guerra.

Esse caminho é insustentável e precisa ser revertido, alerta parte dos economistas. Esse descontrole fiscal e monetário só pode levar a inflação e desvalorização do dólar. É preciso começar a enxugar.

Mas e aí que entra o fantasma de 37. Em 1933, a economia americana começava a se recuperar de uma das maiores recessões da história. Mas o governo de Franklin Delano Roosevelt começou a manobrar para trazer o orçamento de volta para o azul e enxugar a liquidez, revertendo alguma das medidas de emergência que havia adotado. A estratégia saiu pela culatra. O aperto acabou abortando o crescimento que começava a se recuperar. Em 1937, a economia voltou a desabar. A tentativa de equilibrar o orçamento levou a uma depressão em dábliu – a economia começou a melhorar, voltou a piorar bruscamente, para só depois emergir.

A mesma coisa ocorreu no Japão nos anos 90.

O governo Obama não quer repertir este erro. Ainda é muito cedo para se livrar das muletas. “O que aprendemos com o episódio de 1937 é que não basta estar se recuperando”, diz Christina Romer, diretora do Painel de Conselheiros Econômicos da Casa Branca (e estudiosa da Grande Depressão, como o presidente do Fed, Ben Bernanke). “Não queremos fazer nada que breque a recuperação.” Mas a turma da austeridade fiscal não está tão certa disso. E acredita que a hora é agora para evitar um surto inflacionário.

É essa a encruzilhada da política monetária e fiscal americana.

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