Notícias sobre a morte da ironia são exageradas

Estadão

23 de novembro de 2008 | 22h35

Pouca gente vai sentir saudades do governo Bush, mas alguns vão perder seu pão de cada dia com o fim da era dábliu. Os irônicos, os sarcásticos, os ferinos e os debochados estão desacorçoados.

Barack Obama matou a ironia, dizem alguns. Esperança não combina com sarcasmo. E os partidários de Obama – fiéis? seguidores? – não primam pelo senso de humor.

Em uma palestra recente na New York Public Library, citada pelo The New York Times, a escritora Joan Didion manifestou seu pesar com o ocaso da ironia. “Os Estados Unidos” na era Barack Obama se tornaram uma “zona livre de ironia”, um enorme tanque de Kool-Aid onde “ingenuidade, transformada em ‘esperança’, está na moda” e onde “inocência, mesmo quando se parece com ignorância, é premiada”. O Kool-Aid, no caso, era uma referência ao reverendo Jim Jones, que distribuiu seu Kool-Aid envenenado para 800 seguidores extasiados na Guiana.

Pode se dizer que Didion – (Slouching towards Bethlehem, The Year of Magical Thinking) – está um pouco rabugenta.

Mas é fato que os satiristas até agora não conseguiram afinar suas penas para retratar Obama. Um senso de politicamente-correto, de “não vamos criticar para não estragar”, domina.

A única piada permitida até agora é sobre as orelhas de abano do POTUS-eleito. E convenhamos, umas duas ou três piadas de orelha de abano já são suficientes para um mandato inteiro.

Bush era o paraíso dos humoristas –o presidente em retirada é uma piada pronta atrás da outra. Desde sua ignorância a respeito de fatos básicos do mundo até seus escorregões verbais, os bushismos, e chegando à triste sucessão de equívocos monumentais de seus dois governos, tudo era material para Jon Stewart no Daily Show.

Barack Obama sabe o nome do presidente do Paquistão. Barack Obama não usa a “internets”, ele tem um BlackBerry. E o presidente eleito tem conjugado todos os verbos de forma certa.

Mais do que isso, acho que valerá a pena perder a piada por alguns meses, mas não perder o país, o que vinha acontecendo. A ironia não morreu. Ela só tirou um sabático e deve voltar em breve.

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