Melancia, granadas e RPGs: atenção, o inimigo ainda está em Tora Bora

Estadão

03 de agosto de 2009 | 06h37

O centro distrital de Pachir Wa Agam abriga a polícia e o governo do distrito. O centro vem sendo constantemente atacado por insurgentes – os bad guys ou miscreants (incréus), como dizem os afegãos. Pachir Wa Agam é o distrito onde ficam as cavernas de Tora Bora, o famoso esconderijo de onde Osama bin Laden escapou das forças americanas.

“O inimigo ainda está em Tora Bora”, diz o chefe de polícia Pachir Wa Agam. “Mas o Taleban não gosta do clima lá, então quer vir se apossar do nosso distrito”, diz ele, dando gargalhadas da sua própria piada.

A última vez que houve ataque no centro foi há dez dias, às 11h30 da noite, ele conta.Durante uma hora e meia, os insurgentes atacaram com RPGs (rocket propelled grenades), morteiros e AK-47s.

Os Taleban gritavam para os policiais afegãos – “Deponham as armas, seus filhos de Bush!” Aparentemente, isso não era um elogio.

O chefe de polícia é uma figura. Ele fala um pouco de inglês, faz gestos eloqüentes e muitas caretas. Coça a barba. O nome dele é Faizan Kazi Zada, que significa Faizan filho de um juiz. Mas o chefe de polícia, na realidade, é médico. Dr Faizan Kazi Zada, chefe de polícia, filho de juiz.

Enquanto explicava isso para os soldados americanos, o chefe de polícia parou e, olhando para mim, perguntoou: “Ela é convidada?”

“Sim, é jornalista, nossa convidada”, disse o tenente Brian Schroeder.

Aí então começou a valer o Pashtunwali, o código de honra dos pashtuns. A hospitalidade é um dos princípais mandamentos do Pashtunwali (daí porque Osama bin Laden, como tinha sido convidado pelo Taleban, nunca seria entregue por eles para os americanos, isso iria totalmente contra o Pashtunwali)

No meu caso, a hospitalidade ditada pelo Pashtunwali começou com uma descrição detalhada da região. No meio de sua explanação sobre os vales de Pachir Wa Agam, o chefe de polícia se levantou, agarrou o rádio que estava a seu lado, e zap! matou uma vespa com o rádio.Deu um sorriso triunfante – como o presidente Barack “I got the sucker” Obama ao matar a mosca que o importunou durante uma entrevista.

“Mas continuando, nossa convidada deve saber que as mulheres de Pachir Wa Agam são muito trabalhadoras, e nós temos escolas para mulheres aqui.”

Nisso, entrou na sala o chefe de inteligência do distrito. E nem todo mundo é, digamos, moderno como o chefe de polícia. O chefe de inteligência começou a cumprimentar um a um todos os soldados e tradutores que estavam na sala. Chegou na minha vez, ele deliberadamente “pulou”. Isso, como se eu fosse invisível, por ser mulher (vale dizer que eu estava devidamente coberta com véu, mangas compridas, etc).

Após a entrada do chefe de inteligência, o Dr Faizan tocou uma campainha – que era uma mistura de Pour Elise do caminhão de gás com algum toque de celular enervante. Um soldado entrou na sala, recebeu algumas ordens, e saiu rapidamente. Voltou carregando várias RPGs e granadas. Pôs tudo no chão.

“Isso é o que recolhemos do inimigo, muitas dessas não explodiram e ainda podem ser usadas”, disse o chefe de polícia aos soldados americanos, que estavam na sala.Ou seja, ali no chão, havia o potencial para explodir uns 5 quarteirões.

De novo, veio o Pour Elise mix. O soldado levou embora as RPGs e granadas. Voltou com melancias para todos.

“Nossa convidada quer bolo?”

“Claro.” E aí veio o bolo. E depois o indefectível chai, o chá.

Mas calma, pois não se pode tomar chai com melancia, “dá doença”, Dr Faizan avisou. É o equivalente afegão ao nosso “manga com leite morre”

Depois de trocar mais impressões com o chefe de polícia, o tenente americano disse: “E então, podemos ir com seus homens para fazer uma busca nos locais onde os bad guys estão escondendo armas e montando posições?”

Claro, disse Farzai. Só que daqui a pouco. Ou sorria, você está na Bahia.
“Os meus homens agora vão almoçar. Vai demorar uma meia hora. Vocês também não querem comer?”

Os americanos mais estressados começaram a se irritar. “What the f…..Como assim, e se eles estivessesm sob ataque, iam parar para almoçar??” gritava um pelo rádio.

“Calma, é preciso entender a cultura”, disse o tenente.

Veio o pão, arroz e carne. Comemos com a mão. Nosso anfitrião, gentilíssimo, até trouxe uma colher para a “convidada” pouco hábil ao comer o pão com arroz.

Acabado o almoço, quis deixar os homens mais à vontade para conversar e subi no teto, onde alguns soldados estavam de guarda. Lá, deitado em uma dessas camas que tem em todo lugar aqui, estava o subgovernador. Um senhor de uns 60 anos, barba e cabelos tingidos de vermelhos, poucos dentes na boca, cuspindo em uma lata ao seu lado. Muito simpático, assim que eu cheguei, ele me convidou para sentar e disse: Chai?

O subgovernador estava recebendo petições de seus eleitores, para cuidar de problemas.

Logo depois chegou o tradutor (ou TERP, de interpreter, como são chamados pelos soldados), e tivemos a conversa básica – Journalist, Brazil, Football. Com ele, veio o tenente Schroeder.
O subgovernador disse ao tenente americano que precisava da presença dos americanos durante as eleições, porque ele esperava muita ação dos “bad guys”.

Mas o tenente explicou que a ação das forças americanas terá de ser apenas secundária, de ajudar as forças locais, para que não haja acusações de interferência estrangeira no pleito.

O subgovernador suspirou.

*****

Depois de uma hora, saímos nos quatro MRAPs, seguindo uma caminhonete verde da polícia nacional afegã, a ANP. Entramos numa estrada que era uma poeira só e a paisagem foi ficando cada vez mais lunar. Paramos perto de uma caverna.Os policiais afegãos e os americanos desceram para verificar.

Bem do lado da estrada tinha uma coisa verde.

“Esse é o vidro da frente da caminhonete da ANP que foi estraçalhada por um IED há três semanas. Um cara perdeu as duas pernas, e o outro perdeu o pé”, disse-me o senhor Ken Silvia (ele disse que o sobrenome era português). Silvia é aposentado da Força Tarefa Antiterrorismo do departamento de polícia de Nova York, o famoso NYPD. Ele se aposentou em 2006. Em dezembro de 2008, veio pra cá. Faz análise das bombas usadas e das estratégias dos terroristas, tipo CSI.

“Então, o chefe de polícia disse que ainda está cheio de Taleban em Tora Bora”, eu comentei.

“Lotado”, ele disse, resignado.

“E por que vocês não vão até lá pegá-los?”

“Eu sei, é frustrante. Mas essa é uma guerra diferente. Não é sair por aí matando os bad guys. Isso não adianta. Precisa partir da polícia e do exército afegãos. Eles precisam estar capacitados e ir atrás dos bad guys.”

Contra-guerrilha é uma estratégia totalmente diferente. Antes, os EUA estavam se concentrando em matar os insurgentes. Mas é muito difícil diferenciar o insurgente de pessoas comuns e os americanos acabavam matando muitos civis. Com isso, estavam perdendo o apoio da população.
Agora, a estratégia é: separar, aproximar e construir. Primeiro, separar o povo dos insurgentes. Fazer com que eles deixem de dar abrigo e suporte aos Taleban. Depois, trazer o povo para perto do governo, fazer com que os afegãos confiem nas instituições. Depois, construir uma sociedade sustentável.

A idéia é, em vez de matar os insurgentes, fazer com que as pessoas não mais abriguem esses terroristas. Os terroristas precisam sempre das populações locais – para obter inteligência, para manter suas linhas de suprimento.

“Mas isso vai vai demorar quanto tempo para dar resultados?”
“Ah….anos, 10 anos, 20 anos..”

É bom combinar com o Congresso americano, pensei comigo.

Estava um calor de rachar catedrais, como diria o grande Nelson Rodrigues, ou senegalesco, como diria o grande Rolf Kuntz. Resolvi voltar para os MRAPs estacionados à beira da estrada. Mas antes, algo me ocorreu.

“Como é que a gente sabe se não tem outra IED nesta estrada, com um sujeito lá em cima daquela montanha pronto para apertar a tecla do celular e detonar?” eu perguntei a um sargento.

“A gente não sabe”.

Ah, tá.

“E a gente também não sabe se tem minas por aí, portanto, ande com cuidado. Os russos deixaram muita coisa, e é difícil de ver, parece pedra ou está enterrado.”

Pensando bem, vou ficar aqui fritando no sol.

As cavernas não tinham depósitos de armas. Era um alarme falso.

Mas, no dia seguinte, a missão foi mais frutífera. Saímos de novo com os policiais afegãos. E fomos para um vilarejo. Não é que lá, no meio de um milharal, eles acharam vários restos de morteiro e posições de ataque? Os americanos recolheram os materiais, muitos deles russos, e deram para o sr Silvia fazer o seu CSI.

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Choques culturais

Chaska, em pashtu, é a palavra usada para designar os meninos mais novos, com caras angelicais, que são usados como brinquedo sexual pelos homens. Como é muito fechada a sociedade, mulheres só mantêm relações sexuais após o casamento, é comum haver chaskas. As mulheres são para reprodução e os chaskas, para diversão, explica-me Khalid, um dos tradutores afegãos. Nem todo mundo faz isso, mas é amplamente aceito. Os policiais afegãos sempre fazem piadas – e costumavam chamar o cabo Larry Reger, que tem carinha de menino, de chaska.

Khalid me conta que ninguém pode ter relação sexual com a mulher antes de casar. “O Taleban vai atrás e enforca ou apedreja”, diz.

Continuando nos tópicos mais delicados, pergunto a Khalid o que ele faria se a mulher dele quisesse se divorciar. Para ele, a simples idéia de um divórcio é inconcebível.

“Ela não pode se separar.”

“Sim, eu entendo, mas e se ela se separasse?”

“Ah, ela seria banida e as pessoas iam bater muito nela.”

“Que pessoas?”

“Ah, meu pai, eu.”

“Mas as pessoas então nao se divorciam?”

“Acho que até pode. Mas eu nao conheço ninguém.”

“Você normalmente bate na sua mulher?”

“Eu não, porque eu amo a minha mulher. Mas tem muita gente que bate.”

“E ela usa burca?”

“Só para ir até a cidade.”

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