“Lula não pode estragar a oportunidade de o Brasil ser a próxima nação indispensável” – Steve Clemons

Estadão

12 Maio 2010 | 23h09

“Lula não pode estragar a oportunidade de o Brasil ser a próxima nação indispensável” – esse é o título do artigo publicado hoje no HuffingtonPost por Steve Clemons, famoso blogueiro e diretor do New America Foundation, instituto de pesquisas muito próximo do governo Obama. No artigo, Clemons diz que a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de se intrometer no jogo EUA-UE contra Irã transformou o enorme entusiasmo do governo Obama pelo Brasil e por Lula em “uma confusão; para alguns trouxe grandes dúvidas sobre o discernimento do Brasil”.
Ele explica que para os Estados Unidos, fazer com que o Irã desista de sua capacidade de fazer uma bomba nuclear, latente ou real, está perto do topo das prioridades, ou é o maior objetivo de segurança nacional do governo Obama. “E o Brasil se tornou um obstàculo para uma das maiores prioridades dos EUA e da UE”, diz Clemons. “Talvez seja má política de Estado. Ou no mínimo uma aposta arriscada que vai ter custos elevados se fracassar.”
Segundo o articulista, altos funcionários do governo Obama, além de experientes membros no Senado e na Câmara, afirmam que Obama finalmente estava pronto para defender a entrada do Brasil em um Conselho de Segurança da ONU reformulado, mas aí Lula se meteu na confusão do Irã. “E a postura de Lula, até agora, não tem sido de mediador equilibrado, mas sim de defensor das declarações do Irã”, diz Clemons.
De acordo com Clemons, Obama estava tentando dar um “upgrade” na relação com o Brasil, aproximá-lo do status da Grã-Bretanha, Israel e Japão, que têm as chamadas “relações especiais” com os EUA. “Mas a aproximação com o Irã ameaça tudo isso”. A “A viagem do presidente Lula ao Irã e seu entusiamo para se inserir como mediador entre o Irã e os paíse do P5 + 1 (os membros do Conselho de Segurança da ONU, EUA, Rússia, China, Grã-Bretanha e França, mais a Alemanha) está cheia de perigos para seu legado e para as aspirações do Brasil de entrar nas mais poderosas instituições globais”, diz.
Há dois possíveis resultados da viagem de Lula a Teerã, acredita Clemons. Primeiro, o presidente brasileiro pode conseguir convencer o Irã de que é possível escapar das pressões dos P5+1 e achar outra solução política. “Isso iria irritar seriamente o governo americano”, diz Clemons.. .
Ou então, Lula pode levar a Teerã a mensagem que Obama, Javier Solana da União Europeia e o ex-chefe da Agencia Internacional de Energia Atômica, Mohammad El Baradei, querem transmitir – se comprometem a entrar em discussões sérias sobre as preocupações do regime iraniano acreca de sua própria segurança e sua inclusão em instituições globais, em troca de maior transparência sobre seu programa nuclear para aumentar a confiança dos outros países.
“O Brasil, no crepúsculo do governo Lula, precisa consolidar confiança no país em vez de semear dúvidas, na medida em que encara escolhas fundamentais a respeito do tipo de nação que quer ser, em um momento de inflexão em sua ascensão global.”
Clemons conta ter participado de um evento organizado pelo Itamaraty, que teve convidados eminetes pensadores de relações internacionais, como o pesquisador Parag Khanna, Julia Sweig do Council on Foreign Relations, e David Rothkopf do Carnegie Endowment for International Peace. O secretário-geral do Itamaraty, Antonio Patriota, foi anfitrião do encontro. Clemons elogia a estratégia do Brasil de se inserir em novos polos de poder global.
“O Brasil tem mostrado imensa habilidade política ao se posicionar como a “nova nação indispensável” em quase todo novo cluster de nações, tentando preencher um vácuo em um mundo cheio de instituições anacrônicas , cujas estruturas de poder não refletem a realidade atual”, diz Clemons. Para ele, as recentes cúpulas do BRICS e do Ibsa seriam um reflexo do “posicionamento brilhante” de Lula e seu governo, juntamente com a postura do Brasil nas discussões sobre aquecimento global e a ajuda para transformar o G20 no novo centro de poder para assuntos econômicos globais.
“Mas a realidade é que os Estados Unidos ainda são o personagem vital do globo, que pode facilitar ou restringir as aspirações das novas potências.”