Lágrimas para Detroit

Estadão

31 Maio 2009 | 21h58

A ex-toda-poderosa GM vai entrar em concordata amanhã às 8 da manhã. Não se trata apenas de uma montadora quebrando (ou quase….e na verdade duas, já que a Chrysler também está em concordata). Trata-se de o fim de uma era, a era do romance dos americanos com seus carrões. Quem é que ia dizer, na vida, que a GM ia quebrar? Como disse o escritor P.J.O’Rourke, que acaba de lançar um livro sobre o assunto, a frase “a concordata da GM” é tão melodramática quanto “as fotos da mamãe pelada”. É inconcebível.

Estive em Detroit na semana passada e o cenário é desolador. . Uma volta por bairros residenciais no centro lembra muito Nova Orleans depois do Katrina – sendo que em Detroit, não houve nenhum um furacão.

Há casas abandonadas por toda a parte, muitas foram ocupadas por viciados em crack. Segundo cálculo da prefeitura, são cerca de 44 mil casas vazias na cidade. Muitas foram depenadas por ladrões que vendem os destroços nos ferro-velhos. Mas elas continuam lá, porque a cidade não tem dinheiro para demoli-las – custa US$ 10 mil para derrubar cada uma. Alguns moradores assumiram o serviço – muitos queimam as casas, para que não sejam ocupadas por ladrões ou viciados em drogas.

Muitas das pessoas que eu entrevistei não têm dentes. É gente sem emprego, sem assistência médica, sem acesso a dentista.

A cidade encolheu junto com a indústria automobilística. No apogeu das Três Grandes, nos anos 50, Detroit tinha 1,8 milhão de habitantes. Hoje, não passa da metade – são 916 mil pessoas, das quais 80% são negros. Da mesma maneira, a participação da Chrysler, Ford e GM no mercado americano passou de 90% nos anos 50 para cerca de 48% hoje.

A concordata da GM é melancólica. Mas é a única chance de a empresa sair do buraco.