John McCain, em solo brasileiro

Estadão

11 de janeiro de 2011 | 11h51

Ontem, em Brasília, tive a oportunidade de entrevistar o senador John McCain pela segunda vez. A primeira foi em 2008, durante a campanha presidencial americana. Viajei por três dias com a travelling press no avião do McCain – que era da Embraer. Eu era uma estrangeira no meio de dezenas de jornalistas “carrapatos”, aqueles que colam nos candidatos, de publicações americanas conhecidas. Depois de muito implorar, consegui fazer umas cinco perguntas para McCain sobre assuntos que interessavam a nós, brasileiros – etanol entre eles, obviamente.
Ontem, a situação foi bem diferente. McCain ainda é uma instituição do Senado americano, um heroi de guerra (ficou cinco anos e meio preso no Vietnã e, por causa das torturas, não consegue levantar os braços), o “republicanos mais amado pelos democratas”, a voz da razão no Senado, expert em política externa. Sua reputação sofreu um pouco após a escolha atabalhoada de Sarah Palin para compor sua chapa em 2008. E na campanha para as eleições legislativas deste ano, ele decepcionou muitos de seus admiradores mais moderados ao voltar atrás em algumas de suas posições para agradar aos conservadores do Tea Party e quetais – deixou de ser o defensor apaixonado da reforma de imigração, defendeu policiamento mais drástico nas fronteiras, esqueceu um pouco seus modus operandi bipartidário, tão admirado.
Mas McCain é Mccain, um símbolo americano. E sendo McCain, teve recepção quase presidencial no Brasil – 40 minutos com a presidente Dilma, 45 minutos com o ministro da Defesa, Nelson Jobim; meia hora com Palocci e Temer. Nada mal.
Eu tive a sorte de conseguir meia hora, que viraram uns 40 minutos, com o senador. Ele estava relaxado e bem-humorado, acompanhado de outro senador republicano, John Barrasso.Lambuzado de filtro solar, foi logo pedindo aquele “famoso cafezinho”, na residência do embaixador americano em Brasília, Thomas Shannon – que é unanimidade entre brasileiros e americanos. McCain elogiou inúmeras vezes a presidente Dilma, contou como o presidente Lula foi uma surpresa muito positiva e como as relações bilaterais melhoraram nos últimos oito anos – ele negou qualquer tensão. O senador fez questão de enfatizar que há, sim, diferenças de ponto de vista e opiniões entre os dois países – mas os pontos comuns são muito mais frequentes.
Abaixo, publico trechos da entrevista.

O senador republicano John McCain, um dos mais influentes legisladores americanos e candidato derrotado por Barack Obama na eleição dos EUA de 2008, comemorou a “mudança” da posição brasileira em relação ao Irã. E diz que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode estar arrependido de suas declarações mais amigáveis em relação ao governo iraniano. “Eu achei interessantes as declarações da presidente Dilma, acho que já há mudança (na posição brasileira)”, disse McCain em entrevista exclusiva ao Estado. “E olha, as pessoas não são perfeitas; talvez, em retrospecto, o ex-presidente (Lula) veja que essa (aproximação com o Irã) não foi a coisa mais inteligente que ele fez, afinal, os brasileiros acreditam na democracia.” A recusa do Brasil a apoiar sanções contra o programa nuclear iraniano foi motivo de muitos atritos entre Brasília e Washington no governo Lula.
McCain teve recepção quase presidencial no Brasil. Foi recebido ontem à tarde por 40 minutos pela presidente Dilma Rousseff, meia hora pelo o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, e o vice-presidente Michel Temer, e, pela manhã, por 45 minutos o ministro da Defesa, Nelson Jobim. Quando veio para a posse de Dilma, a secretária de Estado, Hillary Clinton, sequer conseguiu quinze minutos com a presidente eleita por problemas de agenda – segundo autoridades americanas, a reunião não foi requisitada. Antes do Brasil, McCain foi à Colômbia, e daqui irá para o Chile, Panamá e México. Abaixo, trechos da entrevista concedida ao Estado.
Os EUA podem cooperar com o Brasil para o policiamento de fronteiras?
Nós poderíamos oferecer assitência técnica, temos tecnologia que poderia funcionar. Mas, francamente, não acho que os brasileiros estão muito interessados em ter nenhuma presença militar americana ou receber conselhos. Mas a resposta real à segurança das fronteiras é a tecnologia. Nós discutimos com o minsitro Jobim os veículos aéreos não tripulados (Vant) e cercas virtuais (como a construída na fronteira do México com os Estados Unidos).
E terrorismo?
Nós discutimos as ameaças à segurança dos jogos olímpicos e da Copa d Mundo que vão se realizar no Brasil. Obviamente, os terroristas querem ir aonde podem fazer suas ações mais espetaculares. Então, não existem organizações terroristas no Brasil, mas certamente há pessoas que estão de olho nesses eventos como alvos de ataques terroristas.
Como o Brasil deveria cooperar com os EUA na questão iraniana?
Amigos discordam de vez em quando. Obviamente, nós encaramos a busca do Irã por armas nucleares, e a opressão de seus cidadãos, incluindo o apedrejamento de mulheres, como comportamento aquém de qualquer norma civilizada, e vamos continuar a condenar.
O sr espera uma mudança do Brasil em sua posição em relação ao Irã?
Vi a entrevista em que a presidente condena esse comportamento bárbaro do Irã. Eu achei interessante as declarações da presidente Dilma, ela teve experiência nesse tipo de tratamento por um governo, acho que já há mudança (na posição brasileira).E olha, as pessoas não são perfeitas; talvez, em retrospecto, o ex-presidente veja que essa (aproximação com o Irã) não foi a coisa mais inteligente que ele fez, afinal, os brasileiros acreditam na democracia.
O sr costumava falar, durante a campanha, na necessidade de criar uma Liga de Países Democráticos para contrabalançar a ascensão de regimes autoritários.
Por causa da emergência da China, vemos menos esforço dos países democráticos para o respeito aos direitos humanos, e por isso precisamos cada vez mais de uma Liga das Democracias. E o Brasil seria ideal, porque emergiu sem nunca ter se envolvido em conflitos militares, e evoluiu de uma ditadura militar para uma das democracias mais eficientes do mundo.
Mas o Brasil tem se alinhado mais frequentemente com países emergentes que não se destacam por suas credenciais democráticas, como China, Venezuela, Irã. ]
O Brasil às vezes faz coisas com as quais eu não concordo. Mas eu acho que nós concordamos em 90% dos casos. E especialmente na América Latina, o Brasil tem desempenhado um papel de intermediador que é muito bem-vindo.
O sr está se reunindo com a presidente Dilma, o vice-presidente Temer e os ministros Palocci e Jobim. É uma grande recepção.
Sim, e somos muito gratos, sabemos da agenda apertada que eles têm.
O sr concorda com a percepção de que o governo petista tem relações melhores com os republicanos do que com os democratas?
(Risos). Na minha opinião, isso iria acontecer mesmo. Mas quando eu vejo como a presidente Dilma e a secretária Clinton se deram bem….
A secretária não conseguiu se encontrar a sós com a presidente….
Eu conversei com a secretária, e ela disse que ficou muito bem impressionada com a presidente Dilma.
Qual recado o sr trouxe à presidente Dilma?:
Queremos uma cooperação cada vez mais próxima, não apenas no mundo, mas também na região. Há algumas áreas muito instáveis neste hemisfério, onde o Brasil pode desempenhar um papel importante, garantir que não piorem.
Que papel o sr espera que o Brasil cumpra na Venezuela?
Espero que o Brasil ajude a convencer as pessoas em nosso hemisfério de que governar por decreto, como Chávez está fazendo, não é democracia. E que as políticas que ele está adotando estão destruindo a economia venezuelana. Quero enfatizar que Brasil e EUA não irão concordar em todas as questões, somos países diferentes, com prioridades diferentes.
Alguns analistas nos EUA afirmam que o tiroteio de Tucson, Arizona, que resultou na morte de seis pessoas e tinha como alvo a deputada democrata Gabrielle Giffords, é resultado de um clima de polarização política nos EUA e uma retórica antigoverno radical. O sr concorda?
Eu concordo que a retórica foi longe demais nas campanhas políticas e que muitas coisas não deveriam ter sido ditas. Mas eu ainda não vi a conexão entre retórica política e um indivíduo demente. Não se pode dizer que o tiroteio foi desencadeado pela discussão política inflamada.

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