Israel atropela agenda dos EUA para o Irã

Estadão

01 de junho de 2010 | 23h46

Quando a secretária de Estado Hillary Clinton marcou um encontro privado com o chanceler turco, Ahmet Davutoglu, em Washington, ela tinha um assunto em mente: sanções contra o Irã. Mas nas mais de duas horas de reunião que os dois tiveram na terça-feira de manhã, Hillary teve de deixar as prioridades dos EUA em segundo plano. O encontro foi “uma discussão aprofundada” sobre o ataque de Israel contra os navios de ativistas pró-palestinos, cheios de cidadãos turcos, e o descontentamento de Davutoglu com a reação tépida dos Estados Unidos.
Israel atropelou a agenda dos Estados Unidos para aprovação de sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU. E o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, está comemorando.
Para muitos analistas em Washington, o incidente envolvendo o exército israelense tira o Irã do centro das discussões. Na segunda-feira, a revelação da Agência Internacional de Energia Atômica de que Teerã acumulou urânio suficiente para fazer duas bombas atômicas poderia ter sido preciosa munição para os EUA em sua busca por sanções. Mas o anúncio foi ofuscado pelas onze vítimas do exército israelense.
O ataque também prejudica a posição negociadora dos EUA, os maiores defensores de sanções duras no Conselho de Segurança da ONU. Os EUA perdem um pouco da legitimidade negociadora ao darem crédito aos críticos que acusam Washington de ter dois pesos e duas medidas, uma para o Irã e outra para Israel.
Daniel Drezner, influente analista de política externa, chegou a comparar as declarações anódinas dos Estados Unidos sobre Israel à pseudo-condenação que a China fez ao ataque da Coreia do Norte ao navio da Coreia do Sul. “O governo Obama reagiu a esse incidente de forma notavelmente similar à reação da China ao incidente com o Cheonan – com um pedido de mais informações”, disse Drezner.
Andrew Exum, analista do Center for a New American Security, foi mais além. “Imagine os israelenses tentando pedir ao Conselho de Segurança apoio a sanções contra o regime iraniano agora; é mais fácil eles saírem de Nova York com sanções contra o regime deles mesmos.”
Antes de se encontrar com Hillary, Davutoglu deixou clara mais uma vez sua posição. “Não podemos pensar em sanções contra o Irã antes de considerarem o acordo porposto pela Turquia e o Brasil”, ele disse. A Turquia e o Brasil, membros rotativos do CS, resistem a apoiar sanções contra o Irã e querem que os EUA conseiderm o acordo de troca de combustível mediado por Ancara e Brasília
O governo brasileiro, que ficou muito irritado com a posição americana de ignorar o acordo mediado por Lula em Teerã, não está cantando vitória.O Itamaraty não inclui em seus cálculos a vulnerabilidade dos EUA ao deixar de condenar diretamente os israelenses. .
Eles acreditam que o incidente ainda pode ser usado pelo lobby linha-dura dos EUA. Diante de toda pressão internacional, Obama eventualmente pode se ver obrigado a condenar Israel de forma mais direta e pedir uma investigação independente do ocorrido. Se isso acontecer, essa fatura vai ser cobrada pelo lobby judaico nos EUA. E a cobrança pode vir na forma de renovado impulso pelas sanções contra Irã.

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