Faltou combinar com os afegãos

Estadão

24 de junho de 2010 | 10h53

O general Stanley McChrystal assumiu o leme da guerra no Afeganistão como o evangelista da contra-insurgência, o COIN, no jargão do Pentágono. David Petraeus, que acaba de tomar seu lugar, é o autor do manual de COIN das Forças Armadas, indicando que a estratégia será mantida. A percepção é de que a estratégia deu certo no Iraque sob Petraeus, mas no Afeganistão os resultados têm sido ambíguos até agora. Segundo a COIN, vencer “corações e mentes” no Afeganistão garantiria a vitória americana nesse país, que driblou britânicos e soviéticos e quase deu um olé em Alexandre o Grande. No final do ano passado, McChrystal, em um relatório que acabou estrategicamente vazando para a imprensa, pediu 40 mil soldados a mais no Afeganistão. Mais homens no fronte seriam essenciais para desempenhar a contra-insurgência, cujo objetivo é conquistar o povo afegão e reconstruir a governança do país, em vez de apenas matar o inimigo.Depois de deliberar por três longos meses, Obama topou mandar mais 30 mil homens. Na contrainsurgência, a tática para vencer a guerrilha é “clear, build and hold” – tirar os insurgentes da área, construir instituições, estradas e escolas, e manter sob controle. Para a contra-guerrilha funcionar, é preciso grande apoio da população, que normalmente protege e abriga os insurgentes. Por isso, limitar mortes de civis é ordem número um, pois a cada civil morto, calcula-se que 10 afegãos se juntem à insurgência. “Os soviéticos mataram 1 milhão de afegãos e nem por isso venceram a guerra”, disse recentemente McChrystal a seus soldados, frustrados com as instruções de evitarem, a todo custo, contra-atacar, por medo de causar mortes de civis..
Com isso, os soldados americanos estão virtualmente de mãos atadas. Eles só podem reagir a ataques quando têm certeza absoluta da chamada PID – positive identification. Mas é muito difícil diferenciar insurgentes de civis, e de civis que ajudam insurgentes. Portanto, na maioria dos casos, os soldados ficam impedidos de reagir. Chega-se ao absurdo de mandar um soldado para o meio de uma emboscada, como isca, para que os insurgentes atirem e os americanos possam reagir e pedir apoio aéreo.O resultado, obviamente, é que aumentou muito o número de mortes de soldados americanos.
Mas faltou combinar com os afegãos, como diria Garrincha. Na ofensiva em Marja, que deveria ter sido um exemplo da nova estratégia no Afeganistão, os locais não estão apoiando os americanos e a ofensiva se transformou em uma “úlcera sangrando”, como disse McChrystal recentemente.No fundo, os afegão apostam que os americanos, como os soviéticos e britânicos antes deles, vão embora em algum momento. E ninguém quer se arriscar a estar do lado errado quando o Taleban voltar.
Para completar, muitos acham que não se trata apenas de estratégia equivocada, mas também de país errado. Para que lutar contra o Taleban no Afeganistão se a Al Qaeda se mudou de mala e cuia para o Paquistão? Como diz o repórter Michael Hastings em sua reportagem na Rolling Stone, “mandar 150 mil soldados para construir novas mesquitas, escolas e estradas perto de Kandahar é como tentar combater a guerra do narcotráfico no México ocupando o Arkansas e construindo igrejas batistas em Little Rock.”

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.