De Istambul, ironias do FMI

Estadão

30 de setembro de 2009 | 08h22

Em primeiro lugar, quero pedir desculpas pela ausência. Os últimos dias foram enlouquecedores – direto da Cúpula do G-20 em Pittsburgh para a reunião anual do FMI em Istambul. Para vocês terem uma idéia da confusão mental, hoje fui barrada aqui na porta do centro de convenções.

– Sua credencial não serve…
E eu, já preparada para discutir, dou uma olhada na dita credencial. Tinha pendurado no pescoço a credencial de Pittsburgh e deixei a identificação do FMI no hotel. (está certo que só perceberam no terceiro check-point….)

Mas chega de digressões.

O anfitrião da reunião do Fundo deste ano é a Turquia, que por muito tempo foi o principal cliente do Fundo. Aliás, era um dos únicos “ganha-pão” do fundo até a crise eclodir, porque países como Brasil e Rússia haviam quitado todas suas dívidas com o FMI. Depois da crise, o Fundo voltou a ganhar relevância – e já fez programas com 15 países, inclusive um pacote de US$ 15 bilhões com a Hungria.

O fato é que a Turquia ser anfitriã da reunião é, digamos, deveras irônico. Faz mais de um ano que o Fundo e a Turquia não conseguem se entender. O país tinha um acordo de US$ 10 bilhões com o Fundo, que venceu em maio de 2008. Pouco tempo depois, começou a negociar um novo pacote. Mas o governo turco não quer nem ouvir falar nos chamados remédios amargos do Fundo: austeridade fiscal, reforma na arrecadação de impostos, superávit primário.
Para sair da crise – que pegou a Turquia de jeito, derrubando a atividade em 14,3% no primeiro trimestre deste ano – o primeiro-ministro Erdogan implementou uma série de pacotes de estímulo, como fizeram outros países. Tinha até isenção de impostos para venda de veículos, a exemplo da isenção de IPI no Brasil. Os pacotes de estímulo funcionaram, e o consumo reaqueceu, amenizando a crise. Mas o buraco fiscal cresceu, e muito. A Trquia passou de uma meta de superávit primário de 6,5% para um déficit primário (sem incluir desepesas com juros) de 2,2% neste ano.

O FMI está mais flexível. Não só nos países que foram aprovados para a nova linha flexível, México, Polônia e Colômbia, por terem políticas macroeconômicas sólidas. Outros países que fecharam acordos tradicionais, como Hungria, conseguiram termos bem menos draconianos que os exigidos nos antigos empréstimos do FMI.

Mas existe um limite. E é aí que o governo turco e o FMI não se entendem.Vamos ver se a bela paisagem de Istambul ajuda.

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