Dábliu

Estadão

18 de outubro de 2008 | 10h32

Ontem fui assistir ao filme W., a última controvérsia lançada por Oliver Stone, que dirigiu os tampém políticos JFK e Nixon. O filme é forçado e caricatural. Mas a história é muito boa – é bom relembrar quão inacreditável é a trajetória do governo Bush.

O W. em questão deve estar espumando – não bastasse uma recessão de proporções históricas, ele ainda teve que engolir esse sapo em forma de filme em seus dias de “lame duck” na Casa Branca.

No W., Bush é retratado como um alcoólatra filhinho de papai que passou a vida em uma missão edipiana para conquistar a admiração de George Bush senior. Sem sucesso, diga-se de passagem.

O filme mostra episódios conhecidos da vida do presidente, como a cena em que Bush engasga com um pretzel enquanto assiste a um jogo de futebol americano acompanhado de Barney, seu cachorro, e quase morre. Ou quando assassina a língua inglesa com a frase famosa “Nossas crianças está (sic) aprendendo?”. Em outra cena, ele chama Guantánamo de Guantanamera. Ouch.

Stone relata a vida de Bush desde a faculdade em Yale, passando pela juventude de bebedeiras, a dificuldade de se fixar em qualquer dos empregos arrumados pelo pai, a competição com o irmão mais inteligente Jeb (que virou governador da Flórida) e o casamento com a bibliotecária Laura. Ele mostra quando Bush pára de beber e vira evangélico, quando se elege governador do Texas, ah,e o momento fatídico – “ouvi o chamado de Deus para me candidatar à presidência”.

A maior parte do filme se foca na decisão de Bush invadir o Iraque, que, na visão de Stone, tinha como objetivo essencial mostrar para o pai que ele era melhor e que conseguiria acabar com Saddam Hussein.

A relação problemática entre Bush filho (Josh Brolin) e pai (James Cromwell) conduz a narrativa. “Quem você acha que é? Um Kennedy? Você é um Bush”, diz Bush pai a W a certa altura, depois de o filho se envolver com bebedeiiras e mulheres. Brolin está super bem como Bush filho, com todos os cacoetes (apertar os olhos, falar como caubói) do presidente. Mas são tantos os cacoetes que a interpretação tem um ar de Saturday Night Live. A atriz que interpreta Laura Bush, Elizabeth Banks, vai dos 30 aos 50 sem nenhum pé-de-galinha – quero saber que creme ela usa.

Barbara Bush (Ellen Burstyn) também despreza o filho e não tem papas na língua. Quando Bush diz à mãe que vai concorrer ao governo do Texas, Barbara não se contém: “Governador do Texas? Você está brincando”, diz, questionando a capacidade do filho.
Karl Rove, que no filme é um anãozinho cabeçudo de óculos, é presença constante ao lado de Bush, treinando-o e dando livros para o presidente se informar. Dick Cheney (Richard Dreyfuss) é a eminência parda do governo.

Uma das melhores cenas é a da torta de nozes. Ao ver o presidente recusar uma torta de nozes, o então secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, comenta – “Mas você adora esta torta, sr presidente.”

“É, mas eu não como doce desde o início da guerra, para mostrar meu sacrifício pelas tropas.”

Pouco depois Bush vai com Laura ao Walter Reed visitar os soldados que perderam pernas e braços no Iraque. Segundo consta, eles também não comem torta de nozes.

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