Cúpula do G-20: concordamos em discordar

Estadão

27 de junho de 2010 | 23h37

No cerne da discórdia entre Europa e Estados Unidos no G20 está a eficácia de política fiscal em países que já estão altamente endividados. O raciocínio dos europeus, liderados pela Angela Merkel, a chanceler da Alemanha, é de que aumentar gastos do governo em países já muito deficitários tem o efeito contrário ao desejado: diminui a confiança do consumidor e reduz a demanda total. Em entrevista ao jornal Wall Street Journal no início da semana, Merkel argumentou que continuar com altos gastos governamentais em um país já endividado ou com déficit acima do desejado leva os consumidores a reduzir seu consumo. Isso porque na Europa, no Estado de bem-estar social, as pessoas são acostumadas a depender da rede de segurança do governo. Portanto, a confiança do consumidor aumenta quando as finanças do governo estão mais saudáveis. As medidas de austeridade, argumenta Merkel, irão estimular a demanda doméstica, e não reduzir. Dos países europeus, apenas Luxemburgo, Eslováquia e Eslovênia têm o déficit orçamentário dentro dos parâmetros estabelecidos pelo Tratado de Maastricht, de até 3% do PIB. No lado do endividamento, que deve ser de até 60% do PIB, só a Finlândia se encaixa. Em entrevista ao jornal francês Le Monde, o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schauble, aproveitou para dar uma alfinetada nos EUA, dizendo que o gigantesco pacote de estímulo de Obama não conseguiu baixar o desemprego americano, que continua na faixa dos 9%.
Já para os EUA, é anátema falar em cortar gastos quando a recuperação ainda não está totalmente firme. O governo americano quer contar com os gastos do governo para aumentar a demanda e sustentar a retomada econômica. O secretário do tesouro, Timothy Geithner, e Lawrence Summers, diretor do Conselho Econômico Nacional, apostam que manter a recuperação vai aumentar a arrecadação de impostos, e o que ajudará a reduzir o déficit do orçamento em relação ao PIB e a relação dívida PIB. O déficit nos EUA está beirando os 11% do PIB e o endividamento, quase 100% do PIB. “Nosso déficit vai cair de forma dramática na medida em que a economia se recuperar e acabarem as medidas de estímulo que nós adotamos na crise”, disse o secretário do Tesouro, Tim Geithner. “Esta cúpula precisa ser fundamentalmente sobre crescimento.”
.China, Brasil e Índia se alinham com os EUA. O ministro das Finanças, Guido Mantega, chamou de “draoniana e exagerada” a meta de reduzri pela metade os déficits até 2013. Manmohan Singh, o primeiro-ministro indiano, afirmou que “políticas de contração, se forem adotadas simultaneamente por países industrializados, podem provocar uma recessão de duplo mercado.”
Com os países adotando visões diametralmente opostas, a única maneira de se chegar a um acordo no G-20 foi deixar a cargo de cada país a calibragem de seu ajuste fiscal em vez de pregar a “unidade” tão celebrada durante a última cúpula, em Pittsburgh, em 2009. No comunicado final, os países concordaram em discordar. entrou o compromisso de reduzir os déficits pela metade até 2013 e por a relação dívida-PIB m trajetória descendente até 2016. Mas para angariar o apoio dos EUA e Brasil, entre outros, entrou também o compromisso de um ajuste “amigável ao crescimento” e medidas adaptadas a cada país e cada circunstância Ou seja, cada um vai fazer o que quiser, como já estava fazendo. Mesmo que isso signifique perpetuar os desequilíbrios globais, com países superavitários tentando exportar para sair da crise.

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