Conversando com robôs surdos

Estadão

24 de janeiro de 2008 | 13h08

Sou a primeira a admitir quão maravilhosamente práticas as coisas são neste país.

Os quiosques de auto-check-in em aeroporto, por exemplo. Fantásticos! Você chega lá, escreve seu nome ou passa seu cartão de crédito, escolhe o assento, e voilá – está com seu cartão de embarque sem pegar nenhuma fila, nem enfrentar atendente mal humorado.

Supermercado pela internet, comida de cachorro, banco eletrônico – tudo isso, aqui e aí no Brasil, é uma mão na roda.

Mas tem coisa que não funciona.

Ontem mesmo, fui comprar uma passagem aérea. Por algum motivo não consegui comprar pela internet, então precisei recorrer ao atendimento automático por telefone da United. Sensacional, você fala endereço, número do cartão, e o robô de reconhecimento de voz entende tudo.

Oh, mas a vida é cheia de imprevistos. E quando você não se encaixa em nenhuma opção? Quando nem o 1, nem o 2 , nem o 3 servem? Diga help.

Em vão, porque help continua sendo um robô, sem jogo de cintura para imprevistos.

Bom, busquei outro telefone onde houvesse algum atendente humano.

“Ah, você precisa ligar no outro número”, explica-me a simpática atendente humana.

“Mas lá é tudo automatizado e eu preciso explicar meu problema, meu cartão de crédito não é daqui”

“Então, você tem que ficar gritando Agent! no telefone”

“Como?”

“É, não adianta falar uma ou duas vezes. Tem que gritar várias vezes, ser persistente, porque o sistema é meio surdo”.

Certo….robôs com surdez seletiva, lá vou eu.

“Agent! Agent! Agent!”

E o Robô surdo lá, tecle 1 para passagem doméstica, tecle dois para passagem internacional….

“Agent! Agent! Agent!”

“Repita as opções”

“Agent!Agent!Agent!”

Tive a nítida impressão de que, enquanto eu gritava agent!, minha cachorra me observava e gritava – sua cretina! cretina! cretina!

Finalmente, depois de longos minutos gritando agent!, o agent veio….e me perguntou tudo de novo…..

agent! help! agent!