Cizânia em Washington

Estadão

12 de janeiro de 2010 | 14h45

Desde que os primeiros trechos começaram a vazar para a imprensa, na sexta-feira, o livro “Game Change” vem espalhando a cizânia pelos corredores do poder em Washington. As revelações bombásticas do livro sobre os bastidores da campanha de 2008 já puseram pelo menos um político na fogueira. O líder democrata no Senado, Harry Reid, teve que telefonar para o presidente Obama para pedir desculpas. Ele admitiu ter dito aos autores o país estava pronto para apoiar um candidato negro, especialmente um como Obama :”um Afro-americano de pele mais clara” , que não “fala como preto”, a não ser que queira. Michael Steele, o diretor do Comitê Nacional Republicano, que é negro, disse que Reid deveria renunciar. “se fosse”. O presidente obama aceitou o epdido de desculpas de Reid, que voltou a se “imolar” em público ontem.

Quase todo mundo sai chamuscado por revelações nada lisonjeiras do livro dos jornalistas Mark Halperin, da revista Time, e John Heilemann, da revista New York;. Segundo o livro, Bill Clinton irritou o então-senador Ted Kennedy ao insistir no pedido de apoio a Hillary Clinton, que disputava a prévia do partido democrata com Obama. Clinton teria dito que Obama, “até alguns anos atrás, era o cara que buscava cafezinho para a gente”.

Hillary aparece como fria e calculista, tal qual era pintada por seus adversários. Um ano antes da convenção democrata, Hillary destacou dois dos executivos de sua campanha para começarem a cuidar da “transição” para seu governo, certa de que iria vencer a eleição.

O livro diz que o “potencial priapismo” de Bill era uma ameaça à campanha de Hillary e, por isso, era tema de teleconferências. O ex-presidente vivia paquerando donas-de-casa vindas da aula de yoga, em um café em Chappaqua, onde os Clinton vivem. E o e-xpresidente vivia para cima e para baixo com seu amigo, o playboy Ron Burkle, cujo avião era conhecido como “Air Fuck One”. Um dos rumores era de que Clinton teria um caso com a atriz Gina Gershon (do filme Showgirls).

A certa altura, o QG da campanha de Hillary descobriu que Bill realmente esta tendo “um relacionamento estável” com uma mulher e fez um plano de contingência para lidar com o escândalo, se vazasse para a imprensa.

O livro Game Change e as revelações bombásticas dominaram os noticiários de TV, jornais e blogosfera no final de semana e ontem. Quando a reportagem do Estado foi à Barnes and Noble próxima à Casa Branca para comprar o livro, o vendedor disparou: “você e mais o resto de Washington vieram comprar esse livro hoje”. Segundo ele, tinha gente do lado de fora, esperando a loja abrir, para comprar seu exemplar.

Sarah Palin tampouco sai bem no livro. Segundo os autores, a vice na chapa do republicano John McCain tinha um tique verbal e cismava em chamar Joe Biden de Obiden, um mix entre Obama e Biden. Por isso, no debate entre os candidatos a vice, começou pedindo a Biden: posso chamá-lo de Joe? Na época, isso pareceu uma estratégia esperta para a candidata parecer mais despachada. Na verdade, era uma tática para evitar uma gafe e mesmo assim ela escorregou uma vez, deixando escapar um “senador Obiden”. No livro, os autores contam que Sarah teve de ser educada sobre todas as questões de política externa, e teve aulas de Primeira Guerra Mundial,Segunda e Guerra Fria com os assessores de McCain. De acordo com eles, ela não sabia nem porque existiam duas Coreias. Ontem, mesmo, Sarah anunciou que será a próxima comentariasta da TV Fox News, de direita.

Elizabeth Edwards é descrita como paranoica e violenta (e não como a heroica vítima de câncer que aparecia na campanha). Em um surto de fúria por causa do caso de seu marido, John Edwards, com Rielle Hunter, Elizabeth rasgou sua própria blusa no meio ede um estacionamento, enquanto gritava para John: “Olha para mim!”

A relação entre Joe Biden e Obama era péssima. Segundo o livro, os dois mal se falavam durante a campanha e Biden não podia participar das teleconferências com a cúpula. Depois de Biden ter cometido a gafe de dizer que, em seus primeiros meses de governo, Obama enfrentaria uma crise internacional, Obama teria dito: “Quantas outras idiotices o Biden vai conseguir dizer?” Segundo os autores, Obama era chamado de “Jesus negro” pelos integrantes da campanha.

Para fazer o livro, os autores entrevistaram 300 insiders políticos, a maioria em “deep background”, ou seja, super em off, como faz o jornalista Bob Woodward. Woodward é autor de três livros sobre os bastidores do governo Bush (além de ser um dos autores do furo sobre o escândalo de Watergate). Os autores (assim como Woodward) são acusados de usar muitos rumores no livro, além de “entrar na cabeça” das pessoas, para supostamente dizer o que estavam pensando.

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