Borat e a prostituta número 4 do Casaquistão

Estadão

05 de novembro de 2006 | 16h57

Em meio à loucura da cobertura das eleições legislativas aqui nos Estados Unidos – lama não define o baixo nível da propaganda eleitoral – resolvi assistir ao festejado filme de Borat, o personagem do comediante inglês Sacha Baron Cohen.

Borat virou uma mania por aqui – as pessoas imitam suas frases, soltando um “nice” e “high five” no meio das conversas. Borat é um jornalista do Casaquistão que assassina a língua inglesa e personifica à perfeição o politicamente incorreto – odeia judeus (o ator Cohen é judeu), fala mal de negros, mulheres, retardados e qualquer minoria.

Ele retrata o Casaquistão de uma forma, digamos, bizarra: seria um país onde os carros são puxados por cavalos, há uma corrida de caça a judeus, os vinhos são feitos com xixi de cavalo fermentado, sua irmã é a prostituta número 4 do país. Para dar sorte, eles precisam de lágrimas de ciganos. E por aí vai. Na abertura do filme, Borat e seu produtor despedem-se dos casaques para a honrosa missão de fazer um documentário sobre “US and A” e o “premiê George Walter Bush” (sic). Quem conduz Borat é um menino de uns oito anos, fumando.

Várias autoridades do Casaquistão já protestaram veementemente contra Borat, dizendo que ele está denegrindo a imagem do país, etc.

Mas a surpresa é que, no filme que estreou na sexta-feira por aqui, Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan (os ensinamentos culturais da américa para o benefício da nação gloriosa do casaquistão, isso tudo em gramática canhestra) -os Estados Unidos é que são o alvo principal das piadas de Borat. Ele viaja de Nova York até a Califórnia em busca do Santo Graal personificado na turbinada Pamela Anderson. Em seu inglês atropelado, ele diz que quer fazer “sexy time” e casar com a loira do Baywatch. No caminho, vai entrevistando cidadãos incautos, que não sabem serem vítimas de uma piada. Feministas, evangélicos, conservadores sulistas, cowboys, nova-iorquinos estressados, garotos de fraternidades universitárias – são todos, inadvertidamente, quase ou tão ridículos como Borat.

“Qual é a melhor arma para se defender de um judeu?” O vendedor pensa por um minuto, e responde: uma 9 mm ou uma 45. Sério.

Em um rodeio, Borat vai fazer uma “homenagem” ao povo americano, e começa a gritar – vamos tirar o sangue dos iraquianos, vamos acabar com eles. Seguem-se palmas efusivas dos americanos. No final do filme, chega-se à conclusão que o país bizarro é, na realidade, os EUA.

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