Bem-vinda a Jalalabad

Estadão

21 de julho de 2009 | 12h34

Foram os 50 minutos mais longos da minha vida – espremida como uma sardinha em um C130, avião do exército americano, com 50 e tantos soldados. Viajei de Bagram até Jalalabad, que fica no leste do Afeganistão. Dentro do avião, é preciso por aqueles tampões de ouvido especiais e ficar com o capacete e o colete antibala. Que calor, meu Deus. Para se locomover, o oficial da Força Aérea vai pisando no joelho de todo mundo até chegar na frente do avião. Os soldados, esmagados, vão dormindo – inclusive porque o baruho é ensurdecedor, não ia dar mesmo para bater papo. Cheguei pingando na base Fenty, que tem umas mil pessoas.

Mal cheguei, já recebi as boas-vindas – uma explosão e um monte de fumaça.

“Anda, anda, isso aí foi morteiro vindo lá do portão”, disse-me o oficial que estava me recebendo. Naverdade, era uma rocket propelled grenade, uma granada movida a foguete. Foi o segundo ataque à base em jalalabad em um dia. Pouco antes de eu chegar, dois homens-bomba tentaram invadir o portão, mas um foi morto pelos soldados e outro preso.

Segundo a tenente Liz Silver, esses ataques do Taleban não são muito normais, porque eles costumam atacar só a cada duas semanas, por ser uma base maior – Jalalabad tem 1000 pessoas. Os insurgentes atacam mais as bases menores. Aqui no leste, Nuristan e Kunar são as regiões mais perigosas. Vou para Nuristan amanhã, de onde parto para um posto avançado – uma minibase com dez a 20 soldados, que fazem missões nos vilarejos.

Em Bagram

Lá em Bagram, os americanos vivem como monges – não podem beber nadinha,e contrabandear uma cerveja é bem perigoso. Os poloneses, britânicos, franceses e alemães que estão na base podem – têm uma restrição de duas a três cervejas por dia. Fumar ainda é permitido. Houve uma conversa de proibir o fumo, mas foi esquecida, pelo menos temporariamente. “A gente ia ver uma revolta aqui, se nem fumar a gente pudesse”, diz a cabo Danielle.

Namorar tambem não pode, em tese. Houve algumas mudanças – agora homem pode entrar no quarto de mulher, desde que a porta esteja entreaberta. Em tese também miltar não pode namorar civil. Mas todo mundo contorna.

Os soldados têm um dia de folga por semana. E em cada rotação de um ano, uma folga de duas semanas.

Inimputável motora no Afeganistão

Mal começou a aventura aqui, e eu já estou ferida. Prendi o dedo no ventilador ontem – heróico, não? Uma das coisas que você só descobre quando chega: só se deve usar roupas de algodão no fronte. Isso porque logo após a explosão de uma bomba, vem uma onda de calor – e roupas sintéticas derretem e grudam na pele quando isso acontece.

Bagram e a guerra espalhada

Na super base americana, há 19 mil pessoas. E eles tentam fazer da base um mini-Estados Unidos, para o conforto dos soldados: tem Pizza Hut, Burger King, Popeye’s, sala de ginástica.

Aqui dentro de Bagram, a atuação do jornalista é restrita. Assino um termo de compromisso garantindo que não vou tirar fotos ou fazer entrevistas se não tiver escoltada por um oficial. Lá no campo, não é assim, poderei entrevistar quem quiser. Mas há regras de segurança – não posso revelar localizações exatas, ou detalhes de operações, por razões óbvias.

Do que venho escutando de colegas jornalistas, essa é uma guerra espalhada. Norte e Oeste do país estão mais calmos, Leste e sul, mais perigosos. Helmand e Kandahar, no sul, são os piores. Depois vem Kunar, Logar e Nuristan.

Um colega do NYTimes acabou de voltar de Helmand. Segundo ele, o calor era tanto, que todos dormiam ao ar livre – e como ele não tinha uma tela contra mosquitos, acordava cheio de bichos andando na cara dele.

Outro colega, um fotógrafo, contou que muitos soldados são vítimas de “choque hipertérmico”. A temperatura em Helmand chega aos 47 graus centígrados. Soldados voltam da patrulha e de repente desmaiam ou começam a vomitar. O remédio é radical, conta o fotógrafo. Abaixam a calça do soldado e enchem de água fria, além de medir a temperatura pelo reto. Se estiver muito alta (depois de passar essa vergonha toda, deve até baixar) ele é levado, de helicóptero, para receber tratamento

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