Aqui e lá – EUA cobram muito mais dos candidatos à Casa Branca

Estadão

27 de agosto de 2010 | 11h07

Publiquei uma matéria hoje sobre a diferença no nível de cobrança dos candidatos à presidência nos Estados Unidos e aqui no Brasil. Reproduzo a versão ampliada, abaixo.
Depois de a candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, ser questionada em um debate sobre sua saúde, na semana passada, ela disse ter considerado a pergunta “um pouco deselegante”. No dia seguinte, acabou vazando para os jornais uma reportagem relatando que Dilma havia se submetido naquela noite a exames no Hospital Sírio-Libanês. Seus médicos divulgaram uma nota atestando que a saúde da candidata é “excelente”. Dilma foi diagnosticada com câncer linfático em abril do ano passado, teve um nódulo retirado e foi submetida a sessões de quimioterapia.
Nos Estados Unidos, o candidato republicano John McCain, que perdeu a eleição de 2008 para Barack Obama, viu-se forçado a abrir 1.173 páginas de histórico médico, de 2000 a 2008, para serem examinadas por jornalistas durante a campanha. McCain foi diagnosticado com câncer de pele (melanoma) em 2000 e teve tecidos do rosto e pescoço retirados.
A transparência em relação à saúde dos candidatos é apenas uma das áreas em que o nível de cobrança dos eleitores é bem maior nos Estados Unidos. Diferentemente do Brasil, lá os candidatos a cargos públicos são obrigados a prestar contas sobre suas biografias, seus rendimentos e de seus familiares, e histórico médico. Não há lei que obrigue os políticos a fazerem isso. Mas a pressão da opinião pública é tão forte, que eles são compelidos a divulgar dados, para se manterem competitivos na campanha.
Transparência com o passado dos candidatos também não tem sido o forte das eleições brasileiras. Nos Estados Unidos, o candidato republicano John McCain teve seu histórico de veterano da guerra do Vietnã dissecado nas eleições em que se candidatou. Em 2008, a Marinha divulgou todos os registros militares sobre a atuação de McCain. Ele ficou preso durante cinco anos e foi torturado por soldados vietnamitas – como sequela, não consegue levantar os braços nem para pentear o cabelo. Antes da divulgação da Marinha, McCain já tinha abordado sua atuação na guerra longamente em seu livro de memórias, Faith of My Fathers..
Ele era considerado herói de guerra e seus oponentes democratas relutavam em criticá-lo. Mas alguns opositores acusam McCain de ter cometido crimes de guerra por ter bombardeado alvos civis em Hanói nos anos 60.
Aqui a oposição também reluta em criticar a atuação de Dilma na resistência à ditadura militar e os três anos que ela passou na prisão, depois de participar de missões do VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares).
Não há transparência sobre a atuação de Dilma durante o período. Está trancado desde março, num cofre da presidência do Superior Tribunal Militar, todo o processo que levou a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, à prisão durante a ditadura. O relatório foi retirado dos arquivos para evitar “uso político”.
No Brasil, onde vários políticos eleitos tiveram os mandatos interrompidos por estarem doentes, não existe uma exigência de os candidatos prestarem contas sobre sua saúde. O marechal Artur da Costa e Silva sofreu um AVC em 1969, quando estava no poder, levando o pais a um período de turbulência. Tancredo Neves adoeceu na véspera da posse e morreu 38 dias depois, de causas ainda não totalmente explicadas.
Segundo Fábio Wanderley Reis, professor emérito de ciência política da UFMG, a população brasileira ainda tem muito pouca informação política e por isso o nível de cobrança dos candidatos é baixo. “Como dizia o político Milton Campos, a opinião pública é apenas uma pequena parte do eleitorado”, diz. “A opinião pública são aqueles que participam, se manifestam, enquanto o eleitorado é o grosso dos que vão votar.”
Nos Estados Unidos, desde 1980, os candidatos autorizam seus médicos a divulgar seus históricos de saúde, embora isso não seja exigido por lei. George W. Bush divulgou todos os seus históricos e permitiu extensas entrevistas com seus médicos. Bush pai, Michael S. Dukakis, Bob Dole e John Kerry autorizaram entrevistas extensas com seus médicos e deram coletivas discutindo sua saúde. Já Bill Clinton só falou sobre sua saúde quando concorreu à reeleição.
Em maio de 2008, quase seis meses antes do dia da eleição, McCain reuniu um grupo de jornalistas e divulgou seu histórico médico, que é protegido por leis de proteção à privacidade. Depois, McCain realizou uma coletiva de imprensa só para falar sua saúde, por 45 minutos. A queixa, lá, foi que ele abriu os documentos apenas para 20 jornalistas (entre eles CNN, Washington post, Reuters e Associated Press) , que tiveram três horas para examinar o histórico e fazer anotações. A campanha só resolveu abrir o histórico médico de McCain depois de muita pressão de órgãos de imprensa.
Fernando Lattman-Weltman, professor de ciência política da FGV do Rio, destaca as diferenças culturais entre os dois países. E lembra que na França, por exemplo, o câncer do ex-presidente François Mitterrand não era tema de campanha, nem a segunda família que ele mantinha. “Brasil e Estados Unidos estão em estágios diferentes de amadurecimento democrático, as eleições só agora estão adquirindo uma competição real e mobilidade”, diz. “Mas dito isso, é importante ter na agenda a maior transparência e prestação de contas em várias áreas.”
A transparência sobre os rendimentos dos candidatos – e seus familiares – também é bem maior nos Estados Unidos. Na eleição de 2008, o republicano John McCain e os democratas Hillary Clinton e Barack Obama, tiveram de divulgar todos os seus rendimentos, de seus cônjuges e filhos dependentes. Aqui, não há registro de declaração de rendimentos da mulher de José Serra, Monica.
Já eleito, Obama divulga no site da Casa Branca, todo ano, uma declaração de todos os seus rendimentos e bens de quase 10 páginas. Ele declara até o cachorro Bo, que ganhou de presente do ex-senador Ted Kennedy, ao custo de US$ 1.600.
O nível de vigilância dos eleitores também é mais baixo quando se trata de flagrantes de atitudes destemperadas dos candidatos. George Allen, candidato à ao Senado pelo Estado americano de Virginia, perdeu uma reeleição fácil em 2006 depois de ser flagrado ofendendo uma pessoa em um vídeo postado no You Tube. Allen chamou de “macaca” um americano de origem indiana, que estava na plateia de um comício seu, filmando o evento para a campanha concorrente. O vídeo do episódio “macaca” fez Allen perder de seu concorrente democrata, Jim Webb, por 10 mil votos, depois de ter largado com ampla vantagem. Allen era dos mais cotados para ser o próximo candidato republicano à presidência, e a gafe acabou com suas chances.
No Brasil, o vídeo em que o governador do Rio, Sérgio Cabral, ofende um eleitor, não repercutiu em sua enorme margem de vantagem para a reeleição. Em um vídeo postado no site YouTube, Cabral, aparece, ao lado do presidente Lula, discutindo e xingando o jovem Leandro. Na gravação, o rapaz reclama do barulho que o Caveirão (veículo usado pela polícia do Rio) faz na sua rua. Cabral então pergunta: “E o tráfico?”. Leandro responde “na minha rua, não” e Cabral retruca, “não tem nego de metralhadora, não? Então deixa de ser otário, discurso de otário”. Em trecho adiante o governador diz ao menino: “Bota essa inteligência toda para estudar, ô sacana!”

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