A vida na base de Kala Gush

Estadão

25 de julho de 2009 | 03h42

Alguém já disse que guerra é assim: horas de tédio, interrompidas por minutos de terror.

Aqui na base de Kala Gush, o ditado cabe perfeitamente.

A base está encravada no meio de montanhas na província de Nuristan, num lugar lindo. São 250 pessoas, sendo apenas 9 mulheres. Bem na frente, fica o vilarejo de Nangarech, com 200 pessoas.

Estou num barraco de madeira com três outras mulheres. Cada uma tem seu quarto, com divisória de madeira. E cada uma arruma do seu jeito. Minha vizinha da esquerda pendurou na porta um pano afegão lindo que ela comprou no bazar. Uma vez por semana, os locais vêm até a base vender algumas coisas.

Essa minha vizinha de quarto é inteira tatuada

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“Quantas tatuagens você tem?” eu perguntei, olhando para o braço dela, inteiro coberto de desenhos coloridos, bem bonitos.

“Não tenho nem idéia…só sei te dizer em horas…o braco levou 25 horas…mais as costas, pescoço, quadris…..acho que tenho no total 42 horas de tatuagens.”

Ela tem 24 anos, cabelo curtinho ruivo e é super agitada. Seu marido, que não é militar, tem 36 anos
“Ele é super certinho, só tem uma tatuagem – uma cruz no braço.”

Minha vizinha está um pouco frustrada. Ela é médica de batalha e queria ir mais para o fronte. “Eu pedi para me mandarem para um lugar onde eu posso ajudar o pessoal na batalha….mas aqui, é tudo muito esparso…”

A batalha é bem espalhada mesmo. A maioria dos ataques é com IEDs, as bombas de estrada, Rocket Propelled Grenades e suicidas.E grande parte do trabalho de contra-guerrilha é pouco sexy, como me diz o líder do pelotão Nightmare, Tenente Anthony Great. “Nós vamos lá conversar com líderes da região, ajudá-los com a segurança, criar confiança.”

Mas o inimigo é imprevisível, como no Iraque. E Barg-e-Mattal está aí para confirmar. Barg-e-Mattal é uma base próxima de Kala Gush, que fica em uma região bem parecida, também em um vale. Nos últimos sete dias, a base está sob fogo cerrado dos insurgentes, que atacaram das montanhas, pelos dois lados. Três soldados americanos já morreram.

O capitão Luiz Arriola, que tem na bagagem 15 meses de Iraque, estava “complacente”, como se diz aqui muito. “Já estava até dormindo dentro dos MRAPs nos trajetos para as missões, bem tranqüilo, achando que nada ia acontecer.” Uma granada, uma troca de tiros e um IED o deixaram mais esperto. Há cerca de 4 semanas, os soldados foram verificar a torre de rádio e acabaram recebidos por fogo cerrado e granadas. Há três semanas, o Humvee que estava na sua frente foi atingido por um IED, capotou, e o atirador – o soldado que fica em cima, para fora do veículo – quebrou as duas pernas. “Ele foi pra Alemanha, graças a Deus não vai perder as pernas.”

Esses são os minutos de terror. Nas horas de tédio, eles jogam ping-pong, basquete, muito videogame, ficam no telefone e na internet.

À noite, é um breu só. Só podemos usar lanternas com luz vermelha, para não nos tornarmos alvos fáceis. Obviamente, no primeiro dia, fui parar no quarto errado – só me dei conta quando vi um uniforme pendurado. Ooops.

Na quinta-feira à noite, fui com o pelotão Nightmare numa missão em Mangow, para montar guarda no centro regional do exército nacional afegão (basicamente, 10 caras em uma casa depenada, segurando armas grudadas com fita crepe vermelha). Eles estão sendo ameaçados pelo Taleban e já foram atacados. Fiz uma matéria sobre a operação, que sai no jornal no domingo.Depois eu posto aqui.

A esmagadora maioria dos soldados fuma. Se não fuma, masca tabaco – e fica cuspindo numa garrafa. Eca. Prefiro que soltem fumaça na minha cara.

Beber eles não podem. O que faz sentido, em um país muçulmano, não seria muito “smart power” ter um monte de soldado enchendo a cara na base enquanto o pessoal morre lá fora.

Há banheiros de alvenaria e também os mal-cheirosos banheiros químicos. O das mulheres é surpreendentemente limpo. Duchas devem durar no máximo 5 minutos, mas muita gente desrespeita

A base é cercada de barreiras feitas com sacos de areia, muros altos e arame farpado, além de várias torres de segurança. Há vários bunkers de concreto, para onde devemos ir caso a base seja atacada.

Ninguém pode por o pé pra fora da base. Não tem essa de dar um passeio na vila. Mesmo os afegãos que trabalham nas bases nunca saem daqui. Outro dia, fui jantar com os afegãos da base – a maioria trabalha como tradutor. Em troca de cidadania e um salário bastante razoável, eles ficam dois, três anos dentro das bases.

“Nunca mais posso visitar meus parentes em Cabul”, disse-me um tradutor. Primeiro, por medo de retaliação. “As pessoas sabem que a gente trabalha para os americanos.” Depois, para não perder sua securirty clearance. Eles levam até um ano e meio para ganhar uma security clearance e poder trabalhar para o governo americano. Se saem da base ou desrespeitam outras regras, perdem a clearance – e o emprego.

Esse mesmo afegão escapou por pouco da morte, três semanas atrás. Um foguete atingiu em cheio seu quarto aqui na base. Ele estava lavando as mãos no banheiro, depois de almoçar.

O jantar afegão estava maravilhoso – um cozido de legumes bem ardido e um carneiro com arroz e canela. A gente comeu com a mão, usando o pão de colher. E tomamos o indefectível chai depois.

No DFac (Dining Facility), a comida também não é ruim. Tem bastante salada e frutas daqui, que são maravilhosas – peras, maças, mangas, pêssegos. Não poderiam faltar as especialidas da American cuisine – hamburguer engordurado, cream cheese, donuts, muffings, asas de frango cheias de molho barbecue e outras frituras em geral.

Ruins mesmo são as MREs (Meals Ready to Eat): um pacote que vem com um prato principal, sobremesa, suco, e um saco “auto-esquentável” – ao se adicionar água, esquenta a comida. AS MREs também têm o apelido de Meals Resisting to Exit (refeições resistindo a sair), porque provocam prisão de ventre.

O contato dos soldados com o Afeganistão em si é bem limitado. Eles só saem em entourages de MRAPs, os veículos anti-IEDs e outros blindados, com seus capacetes de Kevlar e toda parafernália – o que deve intimidar os moradores das vilas, no mínimo. Parece um monte de alienígena chegando. Diante dos discretos MRAPs, as crianças ficam com aquele olhar de “estou vendo um Triceratops na minha frente.”

Às vezes, os soldados andam pelos vilarejos, conversando com as pessoas, nas chamadas missões “desmontadas”. As vilas são todas de casas de barro, a maioria não tem luz elétrica.

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