A sanha anti-Wall Street e o espírito da "regra de Volcker"

Estadão

24 de janeiro de 2010 | 16h44

O presidente Barack Obama, com a popularidade em baixa, já elegeu Wall Street como alvo de sua ira populista. Nesta semana, anunciou regras proibindo bancos que detêm depósitos de correntistas de investir, negociar ou aconselhar fundos hedge e fundos de participações em empresas (private equity), além de vetar as instituições de fazerem operações com seu próprio dinheiro, na chamada regra de Volcker. Obama também propôs medidas para limitar o tamanho dos bancos – para que o governo não se veja novamente obrigado a resgatar instituições com dinheiro do contribuinte para evitar um colapso no sistema financeiro.

Os bancos estão chiando – muito se acham injustamente punidos, porque afinal já devolveram o dinheiro do governo. A Goldman Sachs diz até que não precisava do dinheiro, e só aceitou sob pressão do governo.

Mas o buraco é mais embaixo.

Apesar de terem devolvido as injeções de capital do Tesouro, os bancos se beneficiaram e ainda se beneficiam muito dos recursos do contribuinte.

Com o início da crise de 2008, quando o banco Bear Stearns foi absorvido pelo JP Morgan em março, o governo adotou uma série de medidas de apoio aos bancos de investimento para evitar uma quebradeira em série. Primeiro, eles passaram a ter acesso à janela de redesconto do Fed, antes restrita a bancos de varejo. Depois da quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, bancos como Goldman Sachs e Morgan Stanley foram transformados em instituições que também mantêm depósitos de correntistas – e com isso passaram a ter direito ao seguro do FDIC de contas correntes e outros investimentos e depois o FDIC passou a garantir títulos de dívida emitidos por esses bancos.A Goldman foi um dos maiores usuários desses subsídios. Com isso, em 2009, esses bancos de investimento usaram essas fontes de financiamento barato, subsidiadas pelo governo, para aplicar em investimentos arriscados, feitos pela Tesouraria, ou seja, com o dinheiro do banco para lucro do banco. A Goldman lucrou US$ 13,4 bilhões no ano passado. Eles não usaram esse financiamento subsidiado para aumentar seus empréstimos a empresas, o que teria acelerado a recuperação da economia. A regra de Volcker anunciada por Obama quer coibir exatamente esse tipo de comportamento e forçará alguns bancos a dividirem suas unidades de varejo e de investimentos ou abirirem mão do stateus de banco de varejo, que a Goldman assumiu em 2008. “Vários bancos registraram enormes lucros recentemente fazendo operações com seu próprio dinheiro, apoiados na janela de redesconto do Fed e na garantia das contas correntes pelo FDIC – ou seja, lucraram com ajuda do contribuinte, em vez de usarem a ajuda do governo para voltarem a conceder empréstimos”, disse um funcionário da Casa Branca.

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