A praga dos Crackberries

Estadão

10 Fevereiro 2007 | 22h33

Estava demorando mesmo. Como aqui tem lei pra tudo, estranhei que ainda não tivessem proposto alguma coisa para combater essa doença que vem atingindo proporções epidêmicas – o autismo cibernético.

Basta andar na rua para perceber a extensão da síndrome: pessoas com olhar perdido, que andam esbarrando nos outros, enquanto tentam passar mensagens de texto no celular, num transe induzido por gadgets.Lunáticos cantando muito alto com seus fones de ouvido brancos do iPod. E os mais ubíquos – os Crackberries.

Crackberry é o apelido dado aos viciados em Blackberry e congêneres (Treo, por exemplo), aquele aparelhinho que permite receber e mandar e-mails em qualquer lugar, a qualquer hora, além de funcionar como celular.

Não há nada mais insuportável do que almoçar com um Crackberry. O dependente passa o almoço agitado, checando seu Blackberry a cada dois segundos, uma ansiedade inexplicável para ver se chegou mais um e-mail de spam. Sério, o que pode ser tão importante a ponte de não poder esperar 15 minutos? Em conferências, palestras, é um horror – todo mundo com um mínimo de educação desliga o celular. Mas ficam com o maldito Blackberry ligado, mandando mensagens. Você olha para platéia, metade está olhando para baixo, em vez de estar prestando atenção no palestrante.

Já fizeram até uma reportagem sobre os “órfãos do Blackberry”, crianças que ficam carentes porque seus pais não largam essa porcaria nem por um minuto no final de semana. Sem falar na lesão de esforço repetitivo do Blackberry – as pessoas desenvolvem LER no polegar, de ficar rolando o botãozinho do aparelho. O Crackberry é um workaholic em estado terminal – ele está disponível a qualquer momento, qualquer hora, e tem uma ânsia irreprimível de checar seus e-mails e ver quantas mensagens de “vendem-se Rolex verdadeiros e Viagra do Canadá” recebeu enquanto estava no banheiro.

Pois bem, o ilustre senador estadual Carl Kruger, de Nova York, apresentou uma lei para proibir qualquer pessoa de andar na rua ou atravessar “enquanto estiver usando um equipamento eletrônico, em uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes”. Ufa. Isso porque, desde setembro, três pedestres ouvindo iPod morreram atropelados em Nova York. Duvido muito que esta lei vá passar – ou pegar.

Mas eu acredito firmemente que, em um futuro próximo, algum Crackberry vá ser assasinado durante um almoço.