A marcha da insensatez

Estadão

06 de agosto de 2007 | 15h11

Todo mundo deveria assistir ao documentário “No End in Sight” – Sem fim à vista, do diretor estreante Charles Ferguson, que levou pra casa o prêmio do júri de melhor documentário no Festival Sundance.

Eu já assisti a alguns documentários sobre a guerra do Iraque, mas nenhum me ajudou a ver de forma tão clara a sucessão de erros – existe palavra melhor, mas vou poupar meus educados leitores do baixo calão – do governo americano. Uma sucessão de erros que culminou naquele que pode ser o maior fiasco em política externa da história.

O filme mostra como um grupo de políticos, sedentos para acabar o “serviço” iniciado no governo Bush pai, promoveu uma guerra e ocupação completamente equivocadas e se recusa a reconhecer o erro. É um governo em perpétuo “denial”. A invasão do Iraque foi justificada por falsas armas de destruição em massa, mas o que choca ainda mais é a incompetência do governo ao conduzir a ocupação e tentar recuperar o país que eles próprios destruíram.

“Ou limpam a sujeira que fizeram, ou vão embora”, diz um iraquiano durante o documentário.

O energúmeno Paul Bremer – desculpe, esse indivíduo não pode ocupar nenhum outro cargo – encarregado de “governar” o Iraque pós ocupação, em uma canetada criou uma multidão de 100 mil militares desempregados e armados e, com sua política de desbaathificação, mais outros milhares de desempregados e descontentes. Essas foram condições de temperatura, pressão e umidade ideais para o nascimento da insurgência iraquiana e a ascensão de mais um fanático, Moqtada Al Sadr.

O presidente Abraham Lincoln, um dos grandes estadistas da história americana, cercava-se de assessores que freqüentemente divergiam dele e criticavam suas posições. Com a cúpula de comando do governo Bush, é exatamente o contrário.

Um núcleo de assessores – os já defenestrados Donald Rumsfeld, ex-secretário de Defesa, Paul Wolfowitz, ex-sub na Defesa, e o vice-presidente-cum-Rasputin-de-plantão Dick Cheney – tomavam todas as decisões sem consultar ninguém, muitas vezes nem o presidente. As visões contrárias eram descartadas e os opositores – como o general Eric Shinseki, que insistiu na necessidade de mais soldados para invadir e estabilizar o Iraque – eram condenados ao ostracismo. As opiniões do departamento de Estado e de militares que estavam no Iraque, tentando reconstruir o país, eram solenemente ignoradas.

“Eu me sinto completamente impotente…..”, disse minha amiga americana, que me acompanhou no cinema. Em plena capital federal, o documentário foi aplaudido de pé. Quando as luzes se acenderam, um misto de vergonha e desesperança estava estampado no semblante dos espectadores.

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