A mais recente vítima do subprime

Estadão

20 de novembro de 2007 | 13h44

O estrago do subprime está se alastrando. A vítima mais recente são inquilinos de casas e apartamentos que entraram em execução de hipoteca.

Tudo começou com uma onda de calotes em financiamentos imobiliários para pessoas com histórico de crédito capenga, no começo do ano. Muitos tomadores de empréstimos começaram a perder suas casas. Depois, empresas que concediam os financiamentos imobiluiários começaram a fechar as portas. Calcula-se que mais de 200 tenham quebrado até agora.

Em seguida, bancos que transformavam esses financiamentos imobiliários em títulos e vendiam esses papéis para fundos ou os mantinham em suas carteiras começaram a sentir as conseqüências.

Agora, milhares de inquilinos estão sendo expulsos de suas casas, porque os donos dos imóveis estão inadimplentes em suas hipotecas.

Os Estados Unidos estão em plena ressaca de três anos de excessos no setor de crédito imobiliário. Os critérios de concessão de empréstimos deterioraram muito. Chegaram ao ponto de ganhar o apelido de ‘Hipotecas Ninja’ – No Income, No Job, no Assets (sem renda, sem emprego, sem bens). Outros financiamentos ‘não tradicionais’ ofereciam prazos de 50 anos, não exigiam nenhuma entrada do tomador e tinham juros iniciais baixíssimos, com previsão contratual de reajuste após dois anos.

A bolha das hipotecas do subprime foi alimentada por grandes bancos de investimento, como Merrill Lynch, Goldman Sachs, Lehman Brothers e Morgan Stanley.

O mecanismo é o seguinte: esses bancos ‘compram’ os financiamentos das empresas de hipoteca e os transformam em títulos, na chamada securitização de recebíveis. Aí, vendem esses títulos para fundos de pensão e fundos de hedge ou os mantêm em suas carteiras.

Eles podem ainda emitir papéis que têm como garantia justamente os papéis lastreados nos imóveis, e são chamados de CDOs.

Como as empresas de hipoteca ganham dinheiro ao ‘vender’ seus empréstimos para bancos, elas tinham incentivo de fazer o maior número possível de financiamentos. Para cumprir essa finalidade, essas empresas muitas vezes negligenciavam os riscos dos tomadores de seus empréstimos. Isso é o que os economistas chamam de risco moral.

A contaminação das instituições financeiras começou a ser sentida em junho, com a quebra de dois fundos hedge da Bear Stearns.

Com o aumento dos calotes, os investidores começaram a desconfiar dos papéis lastreados em hipotecas e dos CDOs. A demanda por esses títulos caiu muito e as instituições que investiram pesadamente nesses papéis tóxicos estão perdendo bilhões de dólares.

Está previsto que 1,7 milhão de americanos vão perder suas casas ou apartamentos por execução de hipoteca e milhares de imóveis voltarão para o mercado, o que significa aumento da oferta e deprime os preços. O mercado de hipotecas de alto risco americano é de US$ 1,3 trilhão e calcula-se que cerca de 15% desse volume terá calote. Além dos donos dos imóveis, outros milhares de inquilinos serão expulsos de suas casas.

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