Da maioria silenciosa de Nixon às lágrimas de Glenn Beck – o estridente Tea Party

Estadão

07 de fevereiro de 2010 | 13h36

Tudo começou com um repórter à beira de um ataque de nervos, em cadeia nacional. “Nós não queremos subsidiar as hipotecas dos fracassados! Quem quer pagar a hipoteca do vizinho que resolveu ter um banheiro a mais, e não conseguiu pagar? Ninguém! O senhor está ouvindo, presidente Obama? Vamos fazer um Tea Party em Chicago!” O vídeo de Rick Santelli da rede CNBC, esperneando contra impostos e programas de estímulo do governo Obama, tornou-se sucesso instantâneo no You Tube. E, diz a lenda, deu origem ao Tea Party.

Minutos depois do vídeo, americanos descontentes espalhados pelos quatro cantos dos EUA começaram a fundar, online e em casa, suas filiais do Tea Party. O nome é uma homenagem aos colonos americanos que, em 1773, revoltaram-se contra os impostos cobrados pelos ingleses e passaram a jogar seu chá no porto de Boston. O movimento moderno do Tea Party começou com um bando de fanáticos, que carregavam cartazes com fotos de Barack Obama com bigodinho de Hitler e tumultuavam discussões sobre a reforma do sistema de saúde. Mas em menos de um ano, o movimento se transformou em uma força política que ameaça os democratas no poder e os republicanos moderados tentando se eleger.. E neste fim de semana, realizou sua primeira convenção nacional – ainda cheia de rachas, é bom que se diga

O grupo é bastante heterogêneo. Reúne desde ativistas anti-impostos e libertários antigoverno, passando por fãs de Ayn Rand e Reagan, e até radicais contra imigração, cristãos extremistas e “birthers” que acreditam que Obama nasceu no Quênia e por isso não pode ser presidente. Em comum, os Tea Party estão revoltados “contra tudo isso que está aí” : pacotes de estímulo do governo Obama, déficit crescente, reforma do sistema de saúde, resgate de Wall Street, e os atuais ocupantes de cargos políticos.

O movimento já deixou sua marca no cenário eleitoral. Foi com o endosso dos Tea Party que o republicano Scott Brown ganhou dos democratas a vaga do Senado de Massachusetts, que pertenceu ao ídolo da esquerda Ted Kennedy. Os Tea Party estão apoiando também candidatos ultra-conservadores na Flórida e Kentucky. Na Flórida, eles apoiam Marco Rubio na primária para a candidatura ao Senado, contra o moderado governador Charlie Crist. O eternamente bronzeado Crist virou alvo do escárnio dos conservadores ao apoiar o pacote de estímulo de Obama e até ensaiar um “abraço” no líder americano – devidamente eternizado em blogs de direita. No Kentucky, apostam em Rand Paul, filho do deputado libertário e ídolo dos independentes Ron Paul – aquele que quer acabar com o Fed, o banco central americano.

E no Arizona, a tentativa mais ousada – querem destronar o senador John McCain, ex-candidato à presidência pelo partido republicano. O candidato abraçado pelos Tea Party é JD Hayworth, um radialista que quer acabar com a imigração e expulsar os ilegais do país. McCain, moderado, chegou a patrocinar uma lei pedindo a anistia de parte dos ilegais. Ele é senador desde 1987 e concorre a reeleição em outubro, nas eleições legislativas. Hayworth deve disputar como independente, ou desafiar McCain na primária do partido Republicano, com endosso dos Tea Party.

Apesar da vitórias, o histórico do tea Party ainda é irregular. Em Nova York, ficou provado que eles podem dividir a direita – e acabar perdendo para a esquerda. Na eleição para uma vaga de deputado em upstate New York, os republicanos indicaram Dede Scozzafava, uma moderada que apoia o direito ao aborto e o casamento gay. Os Tea Party torceram o nariz e endossaram Doug Hoffman, um desconhecido ultra conservador. O resultado – um democrata acabou ganhando a vaga que ficava com republicanos há décadas.

”O movimento está começando a amadurecer – não como um terceiro partido, mas como uma força de muita influência dentro da estrutura tradicional dos partidos”, diz Mark Skoda, um radialista que fundou um Tea Party em Memphis.

Dentro do partido republicano, há um dilema – abraçar o movimento Tea Party ou deixá-lo à margem? Ao ignorar os Tea Party, os republicanos se arriscam a perder eleições para candidatos populistas endossados pelo movimento. Mas se abraçarem o Tea Party, correm o risco de migrar para a extrema direita, e perder os eleitores moderados.

“Corremos o risco de jogar para o ostracismo os moderados do partido Republicano – diante da pressão de candidatos do Tea Party, vão todos migrar para a direita”, diz Chip felkel, um estrategista republicano que já assessorou o senador Jim de Mint, conservador que é ídolo dos Tea Party (e bloqueou a indicação do atual embaixador em Brasília, Thomas Shannon, durante meses). “A maioria dos republicanos não é a favor de grande intervenção do governo no Estado, mas também não é contra o governo, como os Tea Party”

O partido de Obama, controlando a Câmara e o Senado, também tem muito a perder. Todos seus deputados e grande parte dos senadores enfrentam as urnas em outubro. De acordo com uma pesquisa NBC News/Wall Street Journal, 41% dos americans têm uma visão positiva do movimento Tea Party. Apenas 35% têm visão positiva dos democratas, e 28% dos republicanos. “O Tea Party é uma ameaça para os dois partidos”, diz John Avlon, que escreveu um livro sobre o movimento.. “É um alerta para a insatisfação dos americanos.”

Da maioria silenciosa às lágrimas de Glenn Beck

Um dos grandes ídolos do movimento é Glenn Beck, o apresentador da rede de TV Fox cujo programa tem audiência de 3 milhões de pessoas. Beck costuma chorar em seu programa e já disse que o presidente Obama era “racista” porque “ele não gosta de gente branca”. Beck também afirmou, ao vivo, que “poderia matar Michael Moore” com suas próprias mãos. Foi Beck quem que turbinou a passeata dos Tea Party em 12 de setembro. A passeata reuniu 60 mil pessoas em Washington. Era gente com cartazes dizendo : “O zoológico tem um leão africano e a Casa Branca tem um africano mentiroso”, bem na frente da Casa Branca.

Sarah Palin, que fez o discurso de encerramento da convenção dos Tea Party, é outra inspiração para o movimento.

Mas historiadores veem raízes mais antigas – para eles, o movimento Tea Party se assemelha à chamada “maioria silenciosa” do ex-presidente Richard Nixon. Nixon tornou famoso o termo “maioria silenciosa”, para designar o grande número de americanos que não estavam protestando contra a guerra do Vietnã, não apoiavam a revolução contracultural dos anos 60, e eram apenas americanos pacatos que queriam estabilidade. Tal como os integrantes do Tea Party, eram brancos de classe média, justamente a fatia demográfica que não votou em Obama. A nova maioria silenciosa seria uma reação às multidões que saíram às ruas em 2008 para eleger Obama.

Analistas também se referem ao historiador Richard Hofstadter, que publicou há 45 anos um ensaio que se tornou um clássico “O estilo paranoico na política americana”. Em plena guerra fria, quando o ultra-conservador Barry Goldwater havia acabado de vencer a primária republicana, Hofstadter descreveu como a histeria de direita tinha tomado conta da política americana. Os radicais estavam sequestrando a agenda republicana, entre eles os lunáticos da John Birch Society, que viam comunistas até atrás da porta.Em comum, todos eles tinham uma predileção especial por teorias de conspiração – tudo era orquestrado secretamente, havia um inimigo oculto, estavam aí para persegui-los. Os membros mais radicais do Tea Party, com suas teorias de que Obama é queniano e a reforma da saúde vai instituir painéis para decidir quem vive e quem morre, remetem à paranoia dessa época.