A humanização de Barack Obama

Estadão

03 de março de 2010 | 22h22

Foi uma revelação chocante.
A esquerda bebedora de Merlot achava que o presidente americano Barack Obama comia hambúrguer só para fazer média com a América Profunda. Mais ou menos como o Fernando Henrique Cardoso dizendo que adora buchada de bode. O intelectual descolado Obama, obviamente, tinha que ser fã de comida natureba da cadeia Whole Foods, tecidos reciclados, proteína de soja, e quetais.
Não exatamente.
“Vocês achavam que o presidente andava com um maço de rúcula no bolso, para fazer lanchinho?”, perguntou o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs.
Obama enche a cara de cheeseburguer e doces cremosos na Casa Branca. Isso mesmo. E é por isso que o ultra-cool presidente americano está com o nível de colesterol relativamente alto, como revelou seu exame de saúde do último domingo. Sim, a primeira-dama Michelle Obama faz campanha contra obesidade infantil e come verduras da horta orgânica da Casa Branca. Mas Obama – surpresa – é falível! Ele adora comida gordurosa. Não consegue parar de fumar. Ah, e não consegue andar sobre a água, como muita gente acreditava.
Saber que Obama cultiva maus hábitos alimentares é apenas o aspecto mais prosaico da humanização do presidente americano. O próprio Obama está aprendendo, a duras penas, que ele é de carne e osso.
Desde o início, o presidente americano alimentou as já elevadíssimas expectativas de seus eleitores, ou seguidores, em relação ao que ele poderia fazer. Obama acreditou ter ganhado do povo americano um mandato sem precedentes para fazer mudanças radicais – e bastaria sentar-se no Salão Oval para que as ambiciosas reformas do Messias se concretizassem.
“Este foi o momento em que as águas dos oceanos pararam de subir e o planeta começou a sarar”. Foi com esse discurso humildezinho que ele selou sua vitória na indicação do partido democrata, em junho de 2008.
Hélas, um ano e meio depois, o aquecimento global não se reverteu. Obama, a propósito, não conseguiu sequer fazer o Congresso inteiro votar em uma lei de mercado de créditos de carbono. E está muito longe de conseguir adotar uma legislação climática.
“Este foi o momento em que começamos a dar assistência aos doentes e empregos aos desempregados”.
É, também esse sonho obamista está longe de se concretizar. O desemprego está beirando os 10%. Os doentes – no caso, cerca de 40 milhões de americanos sem seguro – vão continuar sem assistência por um bom tempo, pelo andar da carruagem da reforma de saúde.
Nada disso é surpreendente. O último presidente americano que conseguiu aprovar uma grande reforma no sistema de saúde foi Lyndon Johnson, em 1965, com o Medicare, que dá assistência a pessoas com mais de 65 anos.
Mas o círculo íntimo de Obama e o próprio presidente acreditaram na sua própira narrativa e só agora descobriram que governar é muito mais complicado do que fazer campanha.
Com Obama na Casa Branca, os oceanos ainda não pararam de pararam de subir, e os empregos teimam em não voltar.
O Presidente Obama, afinal, é humano.