A grande quebra das 14h42 e o mito do operador de dedos gordos

Estadão

08 Maio 2010 | 14h29

Um operador desastrado, com “dedos gordos”, digitou bilhões em vez de milhões e com isso acarretou “a grande quebra das 14h42”, como está sendo chamado o tombo de 9% que o índice Dow Jones levou na quinta-feira, antes de se recuperar e fechar em baixa de 3,2%. O operador estaria em Chicago, seria funcionário do Citigroup, e teria feito uma venda de US$ 16 bilhões em um tipo de ação que imita o desempenho do S&P 500, em vez de digitar US$ 16 milhões. Esse erro teria desencadeado um efeito dominó de vendas de ações em diferentes bolsas e mercados de balcão, levando à maior queda intra-day da história do índice Dow Jones, de 1000 pontos. Em oito minutos, sumiu quase US$ 1 trilhão em valor de mercado. As ações da Procter & Gamble caíram de US$ 60 para US$ 39,37 e subiram de novo em minutos. O papel da Accenture abriu cotado a US$ 41,94 e chegou a ser vendido a centavos de dólar.
A teoria do “operador de dedos gordos” é emocionante e dominou blogs, canais financeiros e sites de notícias na quinta-feira. Mas, aparentemente, o tombo fenomenal do mercado americano está mais relacioando ao trading de alta-frequência e a proliferação de mercados de ações pouco regulamentados, embora ninguém saiba exatamente o que causou o crash das 14h42.
Hoje em dia, dois terços das transações de ações nos Estados Unidos são feitas por meio de trading de alta-frequência, que se dá por meio de computadores que usam algoritmos para determinar quando comprar e vender ações, quantas ações comprar e quais.Esses algoritmos às vezes respondem a gatilhos, desencadeando ondas de vendas quando um índice ou determinada ação cai ou sobe um certo porcentual. E além disso, com ajuda dos computadores super potentes, os traders que usam alta-frequencia podem rastrear transações em dezenas de mercados, obtendo vantagem sobre investidores comuns. Uma das teorias que circulava ontem é que um algoritmo respondeu à grande alta do yen na abertura do mercado na quinta-feira, desencadeando vendas nos EUA. Outra teoria seria de que algum operador de grande banco teria errado em uma transação com a ação da Procter & Gamble.
O Citigroup divulgou um comunicado na sexta desmentindo os rumores de que um de seus funcionários teria cometido um erro em uma transação de ações, dizendo que não havia nada “irregular ou fora do usual” em seus negócios.
“Claro que, em condições normais de pressão e temperatura, isso não teria ocorrido – o dia começou muito mal, com a Grécia”, me disse um operador. “Pode ser até que alguém tenha feito um erro, mas isso foi um fator menor, o problema mesmo são os algos (algoritmos).”
Outro problema é a multiplicação dos mercados eletrônicos, que negociam agora grande parte do volume que era transacionado na Bolsa de Nova York. A Bolsa de Nova York tem circuit breakers, ou seja, o pregão é suspenso por um determinado período quando há queda de certo porcentual (o tempo de suspensão varia de acordo com a magnitude da queda e o horário em que ocorre). Em outros mercados eletrônicos, isso não ocorre. A Nasdaq cancelou as transações feitas com 286 ações que tiveram queda ou alta de mais de 60% entre 14h30 e 15h da quinta-feira. .
Na Securities and Exchange Commission, a comissão de valores mobiliários dos EIUA, investiga-se a hipótese de que vendas de grandes volumes de papeis na Bolsa de Chicago tenham desencadeado um grande movimento de venda na Bolsa de Nova York. Isso teria acionado o mecanismo de desaceleração de transações da bolsa de Nova York, e investidores teriam passado suas vendas para a Nasdaq e outros mercados.
Um oficial da Casa Branca afirmou ontem que o “operador de dedos gordos” não havia desencadeado o pânico de quinta-feira, mas não soube precisar exatamente o que ocorreu. A SEC limitou-se a divulgar um comunicado prometendo fazer “mudanças estruturais” nos mercados para evitar o caos de quinta-feira.
O presidente Barack Obama disse que “a atividade inusual do mercado” está sendo investigada. “As autoridades regulatórias estão investigando para garantir a proteção dos investidores e evitar que isso aconteça de novo, e vamos divulgar os resultados da investigação, além de recomendações
Ou seja, apagaram do mapa US$ trilhão em oito minutos, e e ninguém sabe o que aconteceu. O negócio vai bem….