A entrevista de Antonio Palocci – o que diz o fiador da estabilidade sobre a economia em um governo Dilma

Estadão

23 de agosto de 2010 | 10h17

Conversei na semana passada com o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci. A conversa saiu publicada hoje no caderno especial Desafios do novo presidente – a economia no novo governo.
Palocci é um dos coordenadores do programa da candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff. No primeiro governo de Lula, Palocci era o principal fiador da estabilidade macroeconômica. Agora, coordena a campanha de Dilma e é um dos principais interlocutores em temas econômicos.
A grande preocupação da candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, é assegurar investidores sobre seu comprometimento com a austeridade fiscal, área que é vista como mais frágil pelo mercado financeiro. A evolução das contas públicas é apresentada, relatório de banco após relatório de banco, como o flanco vulnerável de um eventual (e cada vez mais provável) governo Dilma.
Palocci lembra que a petista prometeu assumir uma meta de redução de endividamento em relação ao PIB, além de metas de inflação mais ambiciosas do que as atuais. Em maio, quando Dilma participou de evento organizado pela BM&F-Bovespa em Nova York, ela falou sobre a meta de manter o superávit primário em pelo menos 3,3% do PIB, nível que traria a dívida pública líquida para a razão de 30% do PIB, dos atuais 42%, segundo ela. “É um compromisso fiscal muito forte, porque Dilma vai se comprometer com um nível de endividamento, além de meta de superávit”, disse-me Palocci. Segundo ele, Dilma pretende também assumir metas de inflação ainda mais ambiciosas do que os atuais 4,5% ao ano. “Podemos assumir o compromisso de uma meta de inflação mais ambiciosa, sem um maior custo de política monetária – as condições estão dadas para, gradualmente, baixar a meta de inflação”, disse Palocci.
Outro alvo de críticas, o BNDES, deve ter ajustes. O ex-ministro da Fazenda, um dos principais conselheiros de Dilma na área econômica, afirma que o BNDES vai reduzir sua atuação nos financiamentos e ganhar maior participação do setor privado nas concessões de crédito. “O BNDES não vai manter a expansão dos financiamentos, que foi requisito da crise”, diz Palocci. “Temos de passar para um modelo em que o governo tenha uma parcela menor nos financiamentos, e a parcela privada aumente; vamos fomentar parcerias com fundos privados de infra-estrutura, captar capitais financeiros para os financiamentos do BNDES.” O crescimento do orçamento do BNDES, com capitalizações e consequente endividamento do Tesouro, e o excesso de concentração dos empréstimos da instituição, tem sido questionados. O BNDES está preparando um “pacote de bondades” com incentivos para atrair investidores privados para participar de financiamentos do BNDES.
De modo geral, a ordem é manter o tripé metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário, e apenas fazer ajustes de rota. “As linhas gerais se mantêm, o processo macroeconômico seria melhorado e consolidado”, diz Palocci. “Trata-se de dobrar a aposta”, diz Palocci. Segundo ele, haveria apenas “ajustes finos na política fiscal e de juros e também na questão tributária.”
O déficit em conta-corrente, que deve atingir 2,5% do PIB este ano, não é visto com preocupação pela campanha. “O déficit é decorrente da pujança do mercado interno, mas é sustentável”, diz uma fonte próxima à campanha.

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