A bolha de Cabul

Estadão

20 de julho de 2009 | 01h10

Saí de Cabul ontem, e vim para Bagram, a maior base militar americana no Afeganistão. Agora estou aqui, à espera de um helicóptero para me levar até a fronteira com o Paquistão.

Lá em Cabul, os estrangeiros vivem em uma bolha kafkiana. Com medo de seqüestros e ataques a bomba, a maioria só se locomove em carros blindados com motorista. Ninguém pega táxi. Andar na rua, só em alguns poucos locais considerados seguros.

Cabul se transformou em uma verdadeira cidade fortificada. Muitos lugares têm três portas de entrada, com câmaras que vão se fechando, e guardas com metralhadora em cada uma. Todos os prédios de governo , ONGs e estabelecimentos militares são cheios de sacos de areia conta os muros, que são altíssimos e têm arame farpado.

“Estamos ficando cada vez mais alienados – existe um risco real, mas há também uma grande paranóia, Cabul não é como Kandahar”, diz um alemão que trabalha para o governo da União Européia em Cabul.

As regras de segurança para trabalhadores estrangeiros são tão rígidas que muitos nem chegam a por o pé na rua, literalmente. Grande parte dos empregadores não deixa seus empregados circularem livremente por Cabul por causa do seguro. Este alemão, por exemplo, perde todo seu direito a seguro se acontecer alguma coisa, qualquer coisa, e ele estiver na rua. Ele só pode se locomover em carros blindados.Depois das 19h, tem de informar o chefe de segurança do escritório da UE sobre seus movimentos, por mensagem de texto no celular. “Eu até me sentiria confortável andando em algumas regiões, mas no momento, por causa das restrições do seguro, não vou”, diz ele, que mora no Afeganistão há cinco anos.

Grande parte dos estrangeiros têm toque de recolher – na ONU, por exemplo, é as 23h. A ONU tem também uma lista de lugares “aprovados” para seus funcionários, como restaurantes considerados seguros. Todos os funcionários estrangeiros da ONU vão ser evacuados do Afeganistão antes da eleição, por medo de tumultos. A embaixada italiana está ligando para os italianos e os chamando para uma simulação de evacuação, caso seja necessário, durante a eleição.

Alguns funcionários civis do governo americano não podem sair nunca da embaixada. “Tem gente que vem para o Afeganistão, chega no aeroporto em Bagram ou Cabul, vai para a embaixada, fica três meses e não sai na rua uma única vez”, conta um americano funcionário da embaixada. Alguns, quando saem, só pode ser “a serviço”, acompanhados de escoltas de segurança.
“Com o nosso envolvimento, esse país se tornou a coisa mais kafkiana que eu já vi”, diz o funcionário alemão.

Muitos funcionários de ONGs, que têm regras de segurança menos estritas, andam por todos os lugares sem medo. Mas isso tem um custo – o Afeganistão já é o segundo país em mortes de funcionários de ONGs, depois do Sudão. Segundo a Afghanistan NGO Safety Office, houve um aumento de 95% nos ataques em geral no primeiro trimestre, que chegaram a 527. Nesse período, funcionários de ONGs sofreram 37 ataques graves – sendo duas mortes,20 sequestros e 3 bombas.

Tem gente que vê exagero. Afinal, Cabul não sofre um ataque a bomba há seis meses. Mas há, sim, muitos seqüestros de estrangeiros e de afegãos também.”Os estrangeiros não conhecem a cidade, morrem de medo. Eu ando sozinho pelas ruas de Cabul tranquilamente, gosto de andar, não adianta ficar com medo, trancado em casa” diz James Skinner, um sul-africano que presta consultoria para o ministério das minas do Afeganistão.

À noite, os expatriados se concentram no L’Atmosphere. O lugar é surreal. Com o mesmo esquema de três portas blindadas, o estrangeiro é recebido com um sorriso e a pergunta, casual: “Tem alguma faca ou arma?”, seguido de uma revista.

Lá dentro, mesinhas românticas, com velas, e uma piscina. A noite avança e vai enchendo de gente: funcionários de ONGs, da ONU, prestadores de serviços, militares, jornalistas. As mulheres vêm de mini-saia e calça justa, os homens tomam cerveja e vinho. Lá fora, mnga comprida e véu na cabeça são obrigatórios. No Afeganistão, álcool é proibido – mas aqui na terra dos expatriados, está liberado. E o pessoal aproveita. Lá pelas tantas, um sujeito cai dentro da piscina, bêbado.

Parece uma boate de Maresias, no litoral de São Paulo. Só que o clima é de cabaré da segunda guerra, “vamos aproveitar que amanhã ninguém sabe o que vai ser.”

O lugar proíbe a entrada dos afegãos. Eles são só garçons.

Apesar de toda segurança, ninguém senta nas duas mesas mais próximas da muralha. E há alguns guarda-costas sentados sozinhos em algumas mesas, de colete anti-bala, esperando seus chefes acabarem de comer.

“Um dia vão jogar uma bomba aqui…eu sempre digo que é a última vez que venho”, disse o fotógrafo Marco di Lauro, da Getty Images, que já foi 40 vezes para o Afeganistão e passou longos meses no hospital depois de levar tiros de Talebans.

Farid, um engenheiro afegão, foi mais compreensivo. “Estrangeiros vivem em prisões aqui, depois de seis meses presos, eles querem muito estar em um lugar onde podem vestir o que quiserem , comer e beber sem problemas”, disse Farid de seu escritório. Mas com isso, a maioria não se mistura com afegãos. E nem anda nas ruas, ele diz.

O L’Atmosphere é considerado um alvo óbvio para ataques de insurgentes, assim como a pousada Gandamack, o restaurante La Cantina e o hotel Serena, todos pontos de encontro dos expatriados. No ano passado, militantes do Taliban invadiram o Serena a tiros e mataram sete estrangeiros.

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