ZUMBILANDIA

Guaracy Mingardi

10 de maio de 2012 | 12h26

 

A mal afamada “Operação Cracolândia” mudou o zoneamento da cidade de São Paulo. Aumentou o preço de alguns imóveis e desvalorizou outros. Também teve um resultado inesperado. Até o começo do ano quem queria sentir um frio na espinha andava a noite pela região da antiga “boca do lixo”, próxima a Estação da Luz. Agora quem quiser ter as mesmas emoções tem de circular um pouco mais, inclusive na área próxima a Praça da Sé.

Na Cracolândia restam apenas uns poucos nóias persistentes, que ainda caminham com aquele jeito de zumbi que adquirem ao combinar crack, fome, medo e desesperança. Os outros perambulam por todo o centro. Inclusive nas proximidades da Praça da Sé, área frequentada por mais de dois milhões de pessoas diariamente. Nessa multidão muitas vezes eles passam desapercebidos, mas os efeitos da sua presença não.

Segundo reportagem do JT/Estadão do último final de semana, as queixas de roubo e furto aumentaram na Sé desde janeiro, e os comerciantes estão atribuindo aos nóias. Pode ser, principalmente quando se trata de furto. Quanto aos roubos é mais difícil. A maioria dos nóias não tem mais capacidade física ou mental para um crime violento. Encontrar um deles armado é muito raro. No momento que pusesse a mão em uma arma ele iria trocá-la por umas poucas pedras. Existem relatos de ladrões profissionais que, depois de viciados, venderam a arma por uma mixaria porque estavam na fissura.

Na prática, porém, a chegada de bandos de zumbis provoca um desarranjo em qualquer área comercial. Além dos crimes que podem cometer diretamente, a migração torna a área alvo de outras figuras, menos evidentes, mas mais sinistras, como traficantes e receptadores. E onde tem receptadores aumenta o crime. Além disso, o ir e vir dos usuários de crack provoca outro fenômeno associado, o medo.

Eles amedrontam muita gente. São feios, sujos, mal encarados e se vestem com farrapos. Muita gente evita regiões frequentadas por pedintes, imagine nóias então. A sensação de insegurança é ainda maior do que em locais mais perigosos.

Desde janeiro, quando uma operação mal planejada e essencialmente midiática espalhou o problema por todo o centro, os zumbis circulam procurando um local para se fixar. Quando acharem irão se juntar em grupos cada vez maiores, como já aconteceu outras vezes. E depois de algum tempo e muita reclamação o Estado vai agir de forma atabalhoada, como tem feito até agora.

Não adianta utilizar apenas medidas pontuais. Além da polícia é necessário empregar assistentes sociais, médicos, psicólogos, etc. Criar uma política publica para lidar com os que já estão fisgados e para evitar que novos usuários surjam. Tratar ou internar os que estão nessa vida é enxugar gelo se o crack continuar a encher as ruas de zumbis.

Drogados que perdem o rumo não são novidade. No final do século XIX Londres vivia uma situação parecida devido ao ópio. O quadro que o mestre Conan Doyle fez de uma visita de Sherlock a uma das fumeries londrinas é até mais tétrico do que vemos atualmente em São Paulo.

 

“Através da fumaça podia ver os corpos que jaziam em posições fantásticas… Das sombras apareciam, ora brilhantes, hora fracos, pequenos círculos de luz vermelha, conforme o veneno aceso se tornasse mais vivo ou apagado nos cachimbos. A maioria das pessoas jaziam ali quietas, algumas murmuravam para si mesmas e outras falavam em voz baixa e monótona, ninguém se incomodando com a conversa do vizinho.”

 

Quem já caminhou na Cracolândia a noite conhece essa descrição.

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