PROFISSIONALISMO

Guaracy Mingardi

02 de abril de 2012 | 14h27

 

“Os ladrões respeitam a propriedade. Eles apenas querem tornar sua a propriedade dos outros para respeitá-la mais.”

 Chesterton

 Todo final de semana ouvimos a mesma ladainha: criminosos explodiram alguns caixas eletrônicos. As notícias normalmente vêm acompanhadas do depoimento de autoridades policiais ou membros da FEBRABAN. E as propostas para resolver o problema se sucedem, mas os caixas continuam estourando. Assim como o roubo do cliente que sacou muito dinheiro, a famosa “saidinha”, a explosão dos caixas eletrônicos é uma consequência natural da evolução da ação criminosa, deveríamos ter previsto antes. As condições para o surgimento dessas duas novas modalidades são:

 

  • Ø Crescimento do número de criminosos profissionais, devido ao entra e sai das cadeias, onde eles se formam e apreendem a roubar com mais eficiência.

 

  • Ø Aumento do número de explosivos disponíveis. Isso inclui não só a dinamite roubada ou furtada cotidianamente, como também a disseminação do conhecimento, via internet, da fabricação doméstica de explosivos.

 

  • Ø Melhora da segurança nas agencias bancárias. Muitas agora possuem, além da tradicional segurança armada, portas giratórias com detector de metal, cofres que só pode ser aberto pelo gerente em determinadas horas e sistema de câmeras.

 

  • Ø Diminuição no tempo de resposta da polícia nos grandes centros. Atualmente as quadrilhas especializadas só invadem bancos em pequenas cidades, onde existem poucos policiais e a vinda de reforços é demorada. Esse tipo de crime foi batizado de Novo Cangaço.

 

Os quatro fatores estiveram o tempo todo à vista de policiais e especialistas (nos quais tenho a pretensão de me incluir), mas como sempre foram ignorados. O principal motivo disso é que nossa segurança pública trabalha reativamente. Só age depois que uma nova modalidade se estabelece e ganha as primeiras páginas dos jornais. Ai então, lentamente, a máquina do Estado começa a se mexer. Os policiais encarregados da repressão apreendem a lidar com o novo crime e acabam por prender a maior parte das quadrilhas. Isso ocorreu em São Paulo no inicio dos anos 2000, quando a moda era a extorsão  mediante sequestro. Parte da polícia aos poucos se especializou, começou a entender o modus operandi dos sequestradores, identificou as principais quadrilhas, prendeu vários criminosos e forçou os restantes a procurar outra modalidade de ação.

Isso mesmo, outra modalidade, porque o profissional não vai parar de roubar por conta de uma dificuldade temporária. Ele se especializou nisso e sempre vai procurar brechas na segurança pública. Nós que temos que identificar essas brechas e fechá-las antes que sejam aproveitadas por eles. E isso depende de investigação, inteligência e capacidade de análise. E também precisamos contar com maior profissionalismo dos agentes de segurança, já que os criminosos tem isso de sobra.

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