PESCANDO NO BARRIL

Guaracy Mingardi

17 Maio 2012 | 20h21

 

Uma joalheria do Shopping Ibirapuera foi roubada poucos dias atrás. Não é o primeiro assalto a joalherias em um shopping paulista. Parece que esse crime é um dos que virou moda. O caso, porém, teve alguns lances inusitados. Todos mostram um tipo de amadorismo diferente.

O primeiro foi que o criminoso cometeu o ato de cara limpa, sem óculos ou boné. Ou estava chapado ou é marinheiro (no caso dele pirata) de primeira viagem, pois todo mundo sabe que essas lojas sempre têm câmeras, que no caso totalizavam oito. O filme, exibido na TV em rede nacional, permite ver claramente o rosto do sujeito.

O segundo lance esquisito foi ter pedido às vendedoras, assim que entrou na joalheria, que lhe mostrassem as correntes masculinas. Exatamente a mercadoria subtraída em outro roubo meses atrás. O que já era sabido. Quando não teve sua solicitação atendida anunciou o assalto e levou as bandejas com pingentes e anéis. Parece que ele leu a notícia do primeiro roubo ou conhece um dos ladrões, pois tentou seguir os passos do colega.

O terceiro lance singular, quase hilário, foi o método de fuga. Saiu da loja carregando os mostruários nas mãos, e enquanto caminhava pelos corredores do shopping ia deixando cair algumas jóias. Uma cliente, segundo reportagem de Denize Guedes, encontrou um anel no chão e devolveu no dia seguinte.

Até ai são erros do ladrão e, francamente, quanto mais erros melhor. Afinal com a nossa falta de expertise em investigação temos de contar com a burrice dos criminosos, se não a impunidade seria maior ainda.

Já o quarto lance, o mais estranho de todos, foi a reação da segurança.

Um sujeito atravessa o shopping carregando mostruários de jóias e deixando cair pelo caminho e não é brecado por ninguém! Segundo uma entrevista na TV ele passou por pelo menos seis pontos de segurança durante o trajeto. O advogado da joalheria revelou que o sistema de alarme foi acionado, mas a segurança, além de não fazer nada, ainda atrapalhou a entrada da polícia.

De duas uma: ou o ladrão amador encontrou uma segurança igualmente amadora ou houve conivência. Por ser bondoso vou apostar na primeira hipótese. O que talvez seja pior, pois demonstra como a vigilância privada é mal preparada.

Para atuar nos locais nobres, onde a elite consome, algumas empresas capacitam seus funcionários apenas para manter pedintes e as chamadas pessoas “suspeitas” do lado de fora. Se um criminoso profissional for medianamente esperto veste suas melhores roupas e, uma vez do lado de dentro, faz o que quiser. Retificação, quase tudo o que quiser, pois se tentar correr nas alamedas, dar um amasso na namorada ou outra atitude considerada inconveniente, pode ser chamado a atenção, talvez até expulso do recinto. Como na escola.

Lembra muito os parques exclusivos da Londres de meados do século XIX. Nessa época a segurança local escorraçava indivíduos evidentemente miseráveis, mas permitia a entrada dos batedores de carteira, por exemplo, que sempre andavam vestidos de forma a emular a classe média da época. Era o campo de caça perfeito, onde roubar é tão fácil como pescar num barril.

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