ORGANIZANDO OS NEGÓCIOS

Guaracy Mingardi

24 de abril de 2012 | 11h55

 

Muita tinta já foi gasta discutindo o caso de Carlinhos Cachoeira e sua ligação com políticos. Tem um aspecto da questão, porém, que não foi tratado com profundidade pela imprensa, o do vínculo entre toda e qualquer organização que controla a jogatina e o executivo e/ou o parlamento.

Voltemos um pouco no tempo. O caso mais conhecido de conluio entre Bicho e Estado ocorreu no Rio de janeiro na primeira metade da década de 1990, quando foram apreendidas numa fortaleza do bicheiro Castor de Andrade uma série de listas, impressas ou escritas a mão, onde  constavam os nomes de dezenas de políticos, policiais e autoridades que receberiam dinheiro do jogo do bicho. Esse caso ficou na mídia durante meses, mas depois foi esquecido.

Além do caso de Castor e de Cachoeira existem inúmeros exemplos que demonstram o conluio entre poder público e jogo. Na realidade esse conluio é o principal fator que permite a existência durante anos a fio de qualquer organização criminosa. A Máfia Siciliana, por exemplo, deve uma existência centenária a ligação que tem com setores do Estado Italiano, e só perdeu poder há alguns anos porque seus cúmplices nos altos escalões foram afastados do poder, alguns até condenados na operação Anti Máfia da Procuradoria italiana.

É claro que nem toda organização criminosa tem o mesmo tipo de relações. Muitas se mantêm apenas através da corrupção de alguns agentes públicos de baixo escalão.  Principalmente as muito violentas e não tão entranhadas no tecido social quanto a Máfia. A regra é que grupos que vivem de crimes que provocam repulsa na população têm menor possibilidade de apoio nos altos escalões do Executivo, Judiciário ou Legislativo. Ou seja, matadores, ladrões ou traficantes violentos não entram para o clubinho. Já organizações voltadas para o jogo, golpes contra o erário e lavagem de dinheiro podem ser aceitas como associadas. O raciocínio que aparentemente justifica isso é que crimes brandos, ou contravenções, não machucam ninguém. Bobagem! Quando a situação aperta e os negócios estão em jogo, muitas dessas organizações apelam para a violência, só não fazem propaganda disso.

As guerras do bicho, por exemplo, geraram inúmeros cadáveres em todo o país, mas até os anos 90 bicheiros freqüentavam palanques e festas de socialites. Foram perdendo prestígio por dois motivos: uma sucessão de escândalos e a perda de capital por causa da concorrência das loterias estatais.

Aliás, a diversificação dos negócios dos donos do jogo também se deve em parte a diminuição do lucro. É evidente que todos os chefões têm empresas legítimas, nem que seja apenas para lavar o dinheiro ilícito, mas a aposta em grandes negócios é mais do que isso. A Máfia tinha a maior rede de construtoras da Sicília, além de controlar os sindicatos da área.

Segundo noticiado pelo Estadão (22/04/2012) Cachoeira, filho de bicheiro, freqüentou os camarotes da Marquês de Sapucaí nos anos 90, quando se apresentou a cúpula do bicho carioca. Foi mais esperto do que os novos colegas, pois virou “empresário” e ganhou a concessão para a Loteria do Estado de Goiás. A partir daí aumentou seus negócios legítimos, mas sem largar a origem. A denúncia em curso é de que se instalou em vários ramos, levando consigo os antigos costumes da contravenção, principalmente corrupção e apadrinhamento. Na prática teria copiado a Máfia em tudo.

Isso, porém, não causou tanta estranheza. O ramo das construtoras que atendem o Estado tem muita gente que já faz isso. A diferença é que ele escancarou mais. Foi menos cuidadoso. E agora está na berlinda.

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